As feministas no Habitat III

Hoje vamos postar um artigo em espanhol da arquiteta argentina Ana Falú sobre a necessária inclusão do debate feminista no planejamento urbano no contexto da Habitat III que ocorreu esse ano no Equador.

Segue um trecho:

“La omisión de las mujeres en la planificación urbana es una reafirmación más del posicionamiento de una sociedad patriarcal y androcéntrica que subordina a las mujeres y las invisibiliza en sus diferencias y demandas específicas, sub-valorizándolas. Este sesgo se expresa también en lo disciplinar —en la arquitectura y el urbanismo—, y en las políticas definidas por los gobiernos y decisores técnicos, e incluso al interior de los propios movimientos sociales.”

Tenho participado há mais de uma década a tentativa de incremento desse debate entre movimentos sociais da moradia e grupos históricos da reforma urbana. Neste tempo, o único “consenso” (onde as correlações de força e o poder símbolico tensionam) conquistado foi a titularidade de imóveis em programas de moradia e regularização fundiária preferencial às mulheres e cota mínima na representação em conselhos. Nada além disso. Hoje temos um campo fértil para explorar possibilidades de debate no Brasil que já avançam há anos nos países vizinhos. 

Por isso, recomendamos fortemente esse artigo como uma síntese e uma provocação para avançarmos nesta construção coletiva.

Segue o link: http://www.revistabravas.org/article/23/la-nueva-agenda-urbana-y-las-feministas-en-hábitat-iii

por uma cidade para mães e crianças

quadrinho da maravilhosa Thaiz Leão autora do “Mãe Solo”

Era carnaval e resolvemos sair com nosso bebê de quatro meses. No primeiro dia quem levou a bebéia amarrada no sling foi o pai dela. Foi muito divertido. Um sucesso! As pessoas não paravam de tirar foto da nossa joaninha. E elogiavam: “que legal trazer o bebê no carnaval!”, “assim já acostuma desde cedo”. Teve gente que até aproveitou pra paquerar o pai descolado “hum… a mãe também veio ou você está sozinho?”.

No outro dia eu coloquei nossa filha no carregador e fomos todos contentes pra rua. Mas a recepção foi COMPLETAMENTE – para não dizer violentamente – diferente. Nenhuma foto e nenhum elogio. Apenas olhares tortos que pareciam dizer “o que você esta fazendo com um bebê aqui?”. Algumas pessoas falaram “NOSSA!! é um bebê de verdade!?!?!” com cara de horrorizadas. Encontrei uma amiga que teve a coragem de dizer na minha cara o que os outros não disseram “você é louca de vir com ela aqui”. Foi horrível, fomos embora se sentindo os piores pais do mundo.

Depois, em casa, sentamos e pensamos. Os blocos eram praticamente iguais, no mesmo horário (de manhã cedinho) e na verdade o primeiro era bem maior que o segundo, o que, nesse caso, traria até mais riscos para o bebê. O que tinha mudado? QUEM carregava a criança. O pai era um cara divertido de sair com a filhinha pequena no carnaval, eu era uma mãe negligente. EU DEVERIA TER FICADO EM CASA.

Falta refletir mais sobre isso, mas essas experiências me fizeram pensar muito sobre o que é ser mãe e o sobre o que é ser pai em sua circulação no espaço urbano. Será que essa história também reflete como acontece a relação entre o espaço privado/espaço público e o lugar das mulheres/homens na cidade?

Recentemente um vídeo viralizou nas redes sociais: um homem estava dando uma entrevista ao vivo quando, subitamente, seus filhos invadiram o escritório do pai e atrás deles veio uma mulher desesperada para esconde-los novamente. Para além das piadas racistas/classistas se ela era a mãe das crianças ou uma babá (isso porque o homem era branco e ela asiática) uma coisa inquietante que me tocou era se constituir um PROBLEMA essas crianças aparecerem no espaço público de uma entrevista. Uma amiga minha fez um comentário genial:

Denise d’Omolu
12 de março às 11:21 ·
Sobre o vídeo que tem circulado do professor britânico na BBC, sobre um homem e seus filhos, sobre ambientes de trabalho e crianças… Demorou muito pra cair uma certa ficha na minha cabeça – tempo suficiente pra eu achar que vale a pena expor e compartilhar: A gente só pode viver num mundo sem crianças, ter restaurantes sem crianças, por ex, ambientes de trabalho, ambientes públicos de modo geral, só podem estar limpos e protegidos das crianças e seus ruídos, porque tem uma mulher encarcerada com elas no ambiente privado. Mãe ou babá ou tia ou vizinha… Antes e depois da creche – isso claro, se creche houver – a gente encarcera uma mulher com as crianças pra poder exercer nossa vida adulta protegida delas.

A reflexão, além de maravilhosa, tem uma profundidade que eu só entendi, na carne, agora que sou mãe: como o sistema hétero-patriarcal é onipotente, onipresente, segregacionista e violento para a vida de crianças e mulheres, sobretudo na conformação do espaço urbano. O lugar de ambas nas cidades é enclausurado ao espaço privado das residências, creches ou no máximo ao espaço circunscrito dos parquinhos infantis (quando estes existem). Fora desses espaços esses corpos são mal vistos, ou precisam ser extremamente controlados – isto é, “civilizados”: silenciosos, limpos e corretos – para poderem permanecer.

Bem vindas de volta :)

“maternidade”, picasso

Não gente, o blog não acabou! Nós vamos voltar!

Diana e Rossana, responsáveis por esse blog, tiveram que parir duas filhas cada uma nesses últimos dois anos, sim cada uma de nós teve um bebê e ainda por cima finalizou sua tese de doutorado!!! Mas estamos de volta e com muita vontade de rediscutir aqui no blog tudo que temos pensado diante destes novos desafios que maternidade impõe, mas também como mulheres, trabalhadoras, militantes e urbanistAs. Iremos disponibilizar nossas teses sobre gênero e cidade, publicar nossas reflexões sobre a conjuntura atual e também indicações de leituras que temos feito, eventos e outras coisitas mais que estão acontecendo nos estudos urbanos relativos as questões de gênero 🙂

Neste intervalo o movimento feminista se tornou protagonista das principais discussões sobre as contradições de nossa sociedade. Assistimos várias estudantes e grupos nos cursos de arquitetura e urbanismo descobrindo juntas como pautar e disputar o debate de gênero. Então, estamos animadas. Esperamos que aqui seja um canal de troca e reflexão coletiva e muita sororidade. “Vamu que vamu!”

convite debate: MEGAEVENTOS E A INVISIBILIDADE DA PROBLEMÁTICA DE GÊNERO

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No dia 28/04/2014, das 14:00 – 16:00h, iremos realizar o debate “MEGAEVENTOS E A INVISIBILIDADE DA PROBLEMÁTICA DE GÊNERO” na “II Conferência Internacional Megaeventos e a Cidade” (http://megaeventos.ettern.ippur.ufrj.br).

Nossa sessão livre é aberta a todes participarem e apresentarem suas opiniões e relatos, não precisa estar inscrito na conferencia para participar. A ideia do debate é inclusive reunir depoimentos e impressões sobre as violações de gênero nas intervenções urbanas dos megaeventos. No debate estão confirmadas até agora: Indianara Siqueira (transgênera, puta, assessora parlamentar e VadiX da Marcha das Vadias do Rio de Janeiro), Rossana Brandão Tavares (PROURB/UFRJ), Rachel Barros (IESP/UFRJ) e Diana Helene (IPPUR/UFRJ).

28/04/2014, 14h, Sala:SL6

Clube de Engenharia
(a cinco minutos do metrô da Carioca)
Ed. Edison Passos
Centro, Rio de Janeiro – RJ – Brasil

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Fonte: blog Fórum Comunitário do Porto- Foto: Edmilson de Lima/Favela em Foco
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As áreas exclusivas para mulheres no transporte público, o que fazer?

Uma polemica povoa o debate feminista no que cerne a relação direta da mulher com a cidade: a criação de áreas exclusivas para mulheres no transporte público. Com a recente aprovação da lei de vagões exclusivos para as mulheres em Brasília (2013), a controvérsia é aberta novamente. Mesmo sendo uma medida que visa proteger as mulheres de possíveis assédios, não há consenso de que seja uma boa iniciativa, inclusive entre as feministas. Para auxiliar no debate lançamos um enquete sobre o tema em novembro do ano passado, frente a uma nova polêmica em perfis e blogs feministas por conta da aprovação da lei em Brasília. Após ficar no ar por 4 meses (nov/2013 a fev/2014), fechamos a votação com pouco mais que 300 votos.

Seja bem vinda 2014!

Estamos começando um novo ano e planejamos várias coisas pras atividades do nosso blog!

A primeira coisa é finalizar nossa enquete sobre as áreas exclusivas para mulheres no transporte público. Já temos mais de 200 pessoas que responderam as perguntas e por isso sinalizamos o encerramento da votação pra essa semana, até o dia 16/02/2014!

Nossa próxima tarefa é comentar e divulgar os artigos e trabalhos que enviaram aqui pro blog tratando da relação entre gênero e cidade na América Latina. Aliás, um grande “obrigada” às pessoas que estão nos ajudando a criar essa rede. Estamos juntas(os)!

Por fim, vale lembrar que este é um ano marcado pela realização de um megaevento esportivo, a Copa do Mundo. Nós também queremos colaborar com o debate, tentando pontuar as violações de direitos em relação ao gênero nas cidades-sede. Nossa primeira iniciativa é a organização de uma sessão livre chamada MEGAEVENTOS E A INVISIBILIDADE DA PROBLEMÁTICA DE GÊNERO na “II Conferência Internacional  Megaeventos e Cidades”, que acontecerá de 27 a 30/04/2014. Em breve, divulgaremos mais informações aqui no blog!

Um grande beijo e feliz 2014!