A Mordaça “Anti-Bruxa”: design para exclusão de mulheres do espaço público

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Roland Caillaux, 1945

No ensaio “Can the Subaltern Speak?” (“Pode o subalterno falar?”), de 1985, a teórica feminista indiana Gayatri Chakravorty Spivak argumenta que o subalterno, no caso a mulher não-européia, não pode falar e quando toma coragem de fazê-lo, não é escutado. Isto é, além de enfrentar diversas dificuldades para conseguir se expressar, quando consegue, sua voz não tem valor. Isso devido a constituição cultural do que se constituiria um saber válido, no qual sua valorização depende ainda do sujeito que o elabora, sujeito este construído a partir do mito da universalidade. O ensaio é uma crítica a ciência a partir da ótica do feminismo pós-colonial, mas serve também para pensar a relação entre a fala e a separação construída pela divisão sexual do trabalho a partir do binarismo espaço público/privado. Falar e ser escutada é fazer parte do todo, das decisões coletivas, da política e do espaço comum. É fazer parte da cidade.  Continuar lendo

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Campanha #MEUCORPONÃOÉPÚBLICO.

Um grupo de publicitárias mulheres criaram uma campanha contra a violência e o assédio sofridos pelas mulheres em sua circulação pela cidade, sobretudo no transporte público. Tudo começou em um grupo fechado de Facebook, criado em 2016 pela publicitária Ana Mattioni, chamado Mad Women, que inicialmente tinha o objetivo de unir mulheres que trabalham com criação e atualmente conta com 1.800 profissionais “empenhadas em transformar o mercado e, claro, a sociedade” (segundo divulgação do grupo).

Depois do acontecimento do dia 29 de agosto, quando um homem ejaculou em uma passageira de ônibus e não foi penalizado pelo juiz, as mulheres do Mad Women resolveram unir seus talentos de criação para realizar uma série de pôsteres com fotos, desenhos e frases a partir da hashtag da campanha #MEUCORPONÃOÉPÚBLICO.

Foram criados um “Tumblr” que reúne todas as artes de forma livre e em alta resolução para que qualquer pessoa possa baixar, imprimir e espalhar por aí: https://meu-corpo-nao-e-publico.tumblr.com/; e um projeto de financiamento coletivo no catarse para a impressão de adesivos e posters adesivos para serem espalhados pela cidade com a campanha: https://www.catarse.me/meucorponaoepublico_d379.

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O corpo que amamenta no espaço público

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foto de Michelle Gouveia – Projeto #AmamenteNaCidade

De 1 a 8 de agosto de 2017 aconteceu a Semana Mundial do Aleitamento Materno. Entre as diversas ações relativas a esse evento, muitas cidades no Brasil organizaram “Mamaços*” para levantar a importância do leite materno e reivindicar o direito à amamentar sem constrangimento. Isso porque o corpo que amamenta ainda é um elemento “fora de lugar” quando se encontra em espaços públicos. Mesmo que ninguém peça oficialmente para a mãe que se retire ou  que se cubra enquanto amamenta, muitas vezes ela se sente desconfortável com o olhar de repreensão das pessoas. Sob o pretexto de “ir para um lugar mais tranquilo”, as mulheres são, mais uma vez, levadas a se confinar na esfera privada e no espaço doméstico. Continuar lendo

por uma cidade para mães e crianças

quadrinho da maravilhosa Thaiz Leão autora do “Mãe Solo”

Era carnaval e resolvemos sair com nosso bebê de quatro meses. No primeiro dia quem levou a bebéia amarrada no sling foi o pai dela. Foi muito divertido. Um sucesso! As pessoas não paravam de tirar foto da nossa joaninha. E elogiavam: “que legal trazer o bebê no carnaval!”, “assim já acostuma desde cedo”. Teve gente que até aproveitou pra paquerar o pai descolado “hum… a mãe também veio ou você está sozinho?”.

No outro dia eu coloquei nossa filha no carregador e fomos todos contentes pra rua. Mas a recepção foi COMPLETAMENTE – para não dizer violentamente – diferente. Nenhuma foto e nenhum elogio. Apenas olhares tortos que pareciam dizer “o que você esta fazendo com um bebê aqui?”. Algumas pessoas falaram “NOSSA!! é um bebê de verdade!?!?!” com cara de horrorizadas. Encontrei uma amiga que teve a coragem de dizer na minha cara o que os outros não disseram “você é louca de vir com ela aqui”. Foi horrível, fomos embora se sentindo os piores pais do mundo.

Depois, em casa, sentamos e pensamos. Os blocos eram praticamente iguais, no mesmo horário (de manhã cedinho) e na verdade o primeiro era bem maior que o segundo, o que, nesse caso, traria até mais riscos para o bebê. O que tinha mudado? QUEM carregava a criança. O pai era um cara divertido de sair com a filhinha pequena no carnaval, eu era uma mãe negligente. EU DEVERIA TER FICADO EM CASA.

Falta refletir mais sobre isso, mas essas experiências me fizeram pensar muito sobre o que é ser mãe e o sobre o que é ser pai em sua circulação no espaço urbano. Será que essa história também reflete como acontece a relação entre o espaço privado/espaço público e o lugar das mulheres/homens na cidade?

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convite debate: MEGAEVENTOS E A INVISIBILIDADE DA PROBLEMÁTICA DE GÊNERO

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No dia 28/04/2014, das 14:00 – 16:00h, iremos realizar o debate “MEGAEVENTOS E A INVISIBILIDADE DA PROBLEMÁTICA DE GÊNERO” na “II Conferência Internacional Megaeventos e a Cidade” (http://megaeventos.ettern.ippur.ufrj.br).

Nossa sessão livre é aberta a todes participarem e apresentarem suas opiniões e relatos, não precisa estar inscrito na conferencia para participar. A ideia do debate é inclusive reunir depoimentos e impressões sobre as violações de gênero nas intervenções urbanas dos megaeventos. No debate estão confirmadas até agora: Indianara Siqueira (transgênera, puta, assessora parlamentar e VadiX da Marcha das Vadias do Rio de Janeiro), Rossana Brandão Tavares (PROURB/UFRJ), Rachel Barros (IESP/UFRJ) e Diana Helene (IPPUR/UFRJ).

28/04/2014, 14h, Sala:SL6

Clube de Engenharia
(a cinco minutos do metrô da Carioca)
Ed. Edison Passos
Centro, Rio de Janeiro – RJ – Brasil

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Fonte: blog Fórum Comunitário do Porto- Foto: Edmilson de Lima/Favela em Foco
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