Ser, fazer e acontecer – memórias de um processo

739286_739286Há algum tempo temos tido vontade de resgatar uma publicação muito importante para experiência de formação e militância de uma de nós: Ser, fazer e acontecer – mulheres e o direito à cidade, de Autoria Coletiva e organizado por Taciana Gouveia à época no SOS Corpo em Recife. Como ela mesmo diz, este livro “é em si mesmo um acontecimento por ser um ato inaugural de múltiplas possibilidades”. E esse era verdadeiramente o espírito do processo que culminou nesta publicação. Foram 2 anos de oficinas de formação com mulheres, em sua maioria, de ONGs, movimentos sociais urbanos e associação de moradores de diversos lugares do Brasil, diretamente envolvidas no Fórum Nacional de Reforma Urbana e parceiros da OXFAM GB, naqueles anos de 2007 e 2008 (senão me engano), ou seja, já se passaram 10 anos. As oficinas se constituíram também como uma oportunidade de articulação política de uma agenda de intervenção para a questão de gênero em outras redes e fóruns de reforma urbana. Até porque algumas participantes também ocupavam a cadeira de conselheiras no Ministério das Cidades. Continuar lendo

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Defesa do mestrado “A Cidade Na Perspectiva Do Gênero: As Políticas Públicas Urbanas 1990-2015”

Começamos o ano animadas: divulgando essa dissertação de mestrado super importante que será defendida na pós graduação do curso de Arquitetura e Urbanismo da UNICAMP. Somos muitas e cada vez maiores ❤

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Guestpost (autora convidada): texto de Camilla M. Sumi (Arquiteta, Urbanista e Pesquisadora – PATC – FEC | Habitares | UNICAMP)

Cartaz de divulgação da defesa. Figura: top of the world, silk tapestry. Artista: Billie Zangewa, 2013.

No dia 27 de fevereiro, terça-feira, às 9h30 acontecerá a defesa de mestrado A Cidade Na Perspectiva Do Gênero: As Políticas Públicas Urbanas 1990-2015 da arquiteta urbanista Camilla M. Sumi.

A partir da organização da literatura que aborda gênero e cidade, a pesquisadora apresenta algumas questões do campo político e do direito à cidade para identificar a inclusão do gênero nas políticas públicas urbanas, na perspectiva das mulheres – entendidas como todas aquelas que se reconhecem como tal: mulheres cisgêneros e mulheres transexuais – sendo a cidade de São Paulo objeto do estudo. Continuar lendo

"The Subway", George Tooker, 1950. [Whitney Museum of American Ar/NPR]

Como começar? Já começamos!

O ano de 2017, foi emblemático na luta pelos direitos das mulheres no Brasil e no mundo, e o debate sobre o direito à cidade a partir de nossa perspectiva ganhou ainda mais relevo. Quando iniciamos nossas militâncias e pesquisas sobre esta problemática, a pergunta, “Como começar?” era quase uma ameaça.

Mas, felizmente, já começamos e cada vez mais assistimos e nos envolvemos em debates que têm se aprofundado no debate do urbanismo (e do planejamento urbano) com a perspectiva de gênero, não só entre arquitetas e urbanistas! Tem uma mulherada se empoderando nestas reflexões, muitas delas divulgadas aqui no blog.

O blog também cresceu em conjunto com o interesse cada vez mais maior nos temas relacionados ao estudos urbanos e as questões de gênero. Durante o ano de 2017 o número de acessos cresceu vertiginosamente, como podemos ver no gráfico abaixo, demonstrando como o debate vem ganhando corpo.

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Nola Darling uma mulher resistindo ao machismo, ao racismo e a gentrificação do seu bairro natal

A nova série dirigida por Spike Lee “Ela quer tudo”, do NETFLIX, trás como personagem principal uma mulher incrível da qual acompanhamos a cada episódio sua luta para se tornar uma artista reconhecida e uma mulher sexualmente e afetivamente livre. Nola Darling é uma mulher negra crescida em Fort Greene, no Brooklyn, Nova York. O bairro não é apenas um pano de fundo da história, mas também, na minha opinião, o segundo personagem principal da trama. O diretor, também nascido no local, aprofunda neste seriado uma série de questões sobre o bairro, que já tratava em outras produções suas como o clássico “Faça a coisa certa” de 1989, por exemplo.

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A ciência é um homem branco, ocidental e heterossexual; o planejamento urbano e regional também? – oficina na semana PUR

No dia 13 de dezembro, quarta-feira, estaremos realizando uma oficina aberta na semana do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Semana PUR do IPPUR/UFRJ). Intitulada “a ciência é um homem branco, ocidental e heterossexual; o planejamento urbano e regional também?”, a ideia é pautar e debater juntas uma proposta para inserção dos debates intersecionais entre classe, raça e gênero dentro do instituto, tanto na sua Pós-Graduação em PUR quanto na graduação, o curso Gestão Pública para o Desenvolvimento Social – GPDES.

Historicamente a ciência moderna – dita “neutra”, “objetiva”, “racional” – negou às (nós) mulheres, em especial às mulheres negras, a possibilidade de estar nos espaços de produção e disseminação do saber e de elaborar e compartilhar conhecimentos de relevância para as suas (nossas) vidas e lutas. Esta ciência hegemônica se baseia na ideia da existência de UM sujeito universal, que na verdade é um homem branco, heterossexual e ocidental. Além disso, ainda observamos no ensino, pesquisa e extensão- e inclusive no planejamento urbano e regional – a predominância da razão dualista, baseada em uma lógica binária, de pares opostos e hierarquizados – sujeito/objeto, mente/corpo, cultura/natureza, razão/emoção – construída a partir das diferenças de sexos e desigualdades de gênero.

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“As primeiras a serem expulsas são as prostitutas”

Gabriela Leite, prostituta, escritora e fundadora do movimento social de defesa dos direitos das trabalhadoras do sexo no Brasil, afirma, em uma entrevista de 2006 na revista Caros Amigos, que as primeiras pessoas a serem expulsas por processos de intervenções/renovações urbanas são as prostitutas (LEITE, 2006). De forma recorrente, prostitutas são alvo de processos de remoção e “limpeza”. A eliminação da prostituição aparenta ser uma estratégia precursora de abertura de caminhos para processos de revalorização imobiliária, marcados pela chamada “gentrificação”, na qual a principal característica é uma nova injeção de capital na área e a decorrente substituição de seus moradores/usuários por outros de maior renda. Para isso se efetivar, a violência contra a presença das prostitutas é aliada a processos também violentos de desconstrução dos seus espaços de atuação, como demolições e “emparedamentos”.

“Pistas del Baile”: série de fotografias da artista mexicana Teresa Margolles que retratam prostitutas sobre os escombros da demolição de antigas boates e locais de prostituição nos quais trabalhavam em Ciudad Juárez , México: “Desde los años noventa, sucesivos gobiernos han intentado recuperar su centro histórico llevando a cabo una limpieza social y desplazando, entre otros, a las trabajadoras sexuales que se desenvuelven en la zona. Casas y negocios han sido cerrados y demolidos a lo largo de los años, entre ellos numerosos clubes nocturnos y discotecas, debido a la guerra entre carteles de droga, a decisiones gubernamentales y a la especulación inmobiliaria (Artishock, Jun 9, 2017)”

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“Eu sou atlântica” – Beatriz Nascimento

beatrizA historiadora, ativista, poeta e intelectual brasileira Maria Beatriz Nascimento é uma leitura fundamental para se pensar as relações entre território, colonialidade, corpo, raça e gênero no Brasil. Apesar da perda que tivemos com a interrupção prematura de sua produção intelectual, em 1995, em função do seu assassinato ao defender uma amiga que sofria violência conjugal (um acontecimento com forte simbolismo para discutir as questões de raça/gênero), sua contribuição se constituí de uma originalidade única. Continuar lendo