A Mordaça “Anti-Bruxa”: design para exclusão de mulheres do espaço público

mascara

Roland Caillaux, 1945

No ensaio “Can the Subaltern Speak?” (“Pode o subalterno falar?”), de 1985, a teórica feminista indiana Gayatri Chakravorty Spivak argumenta que o subalterno, no caso a mulher não-européia, não pode falar e quando toma coragem de fazê-lo, não é escutado. Isto é, além de enfrentar diversas dificuldades para conseguir se expressar, quando consegue, sua voz não tem valor. Isso devido a constituição cultural do que se constituiria um saber válido, no qual sua valorização depende ainda do sujeito que o elabora, sujeito este construído a partir do mito da universalidade. O ensaio é uma crítica a ciência a partir da ótica do feminismo pós-colonial, mas serve também para pensar a relação entre a fala e a separação construída pela divisão sexual do trabalho a partir do binarismo espaço público/privado. Falar e ser escutada é fazer parte do todo, das decisões coletivas, da política e do espaço comum. É fazer parte da cidade.  Continuar lendo

Indicação de leitura: “Calibã e a Bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva” de Silvia Federici

“Para ele, ela era uma mercadoria fragmentada cujos sentimentos e escolhas raras vezes eram consideradas: sua cabeça e seu coração estavam separados de suas costas e mãos, e divididas de seu útero e vagina. Suas costas e músculos eram forçados no trabalho do campo […,] às suas mãos se exigia cuidar e nutrir o homem branco […]. [S]ua vagina, usada para o prazer sexual dele, era a porta de acesso ao útero, lugar para os investimentos dele – o ato sexual era o investimento de capital, e o filho, a mais-valia acumulada. […]” Barbara Omolade, Heart of Darkness, 1983 (citação no livro: Federici, 2017, p.113).

Imagem do livro: “Uma “resmungona” é obrigada a desfilar pela comunidade usando a “rédea”, uma engenhoca de ferro empregada para punir mulheres de língua afiada. Significativamente, um aparato similar era usado por europeus traficantes de escravos na África para dominar os cativos e transportá-los a seus barcos. Gravura inglesa do século xvii” (Ibidem, p. 201)

Em julho de 2017 foi lançado a versão brasileira do livro “Caliban and the Witch: Women, the Body and Primitive Accumulation”, de Silvia Federici, original de 2004. A tradução para o português foi realizada por um coletivo de mulheres, o Coletivo Sycorax, que se formou originalmente com o objetivo de traduzir essa obra tão importante da bibliografia feminista e depois se firmou como coletivo editorial. O livro (que é lindo e cheio de imagens impressionantes) pode ser adquirido pela Editora Elefante, mas também está disponível de forma livre, sob direitos autorais da Creative Commons e pode ser acessado aqui. Continuar lendo