Simpósio “PRÁTICAS, REFLEXÕES E DESAFIOS DA ABORDAGEM DE GÊNERO NO CAMPO DA ARQUITETURA E URBANISMO” – ENANPARQ

Nós, Diana Helene e Rossana Tavares, autoras desse blog, realizaremos um simpósio temático sobre gênero ​no V Encontro da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo (Enanparq), em Salvador, BA, dia 17/10/2018. O simpósio “PRÁTICAS, REFLEXÕES E DESAFIOS DA ABORDAGEM DE GÊNERO NO CAMPO DA ARQUITETURA E URBANISMO” é fruto de nossas pesquisas de doutorado, pós-doutorado e da nossa experiência de ensino e pesquisa em cursos de arquitetura e urbanismo. Convidamos outras três mulheres maravilhosas para apresentarem seus trabalhos no evento: Iazana Guizzo, Marina Harkot e Paula Santoro.

quarta feira 17/10/2018
das 16h30 às 18h30
sala 107 – FAU UFBA

Arquivo dos anais do evento com os textos completos: Enanparq 2018

Resumos das apresentações:

 

PRÁTICAS, REFLEXÕES E DESAFIOS DA ABORDAGEM DE GÊNERO NO CAMPO DA ARQUITETURA E URBANISMO

Esta proposta se inscreve no eixo temático Ideários, Projeto e Prática, com foco nas concepções teóricas e metodológicas inspiradas pela abordagem de gênero, levando em consideração classe e raça na arquitetura e urbanismo numa perspectiva interseccional das relações e coexistensiva das práticas espaciais. O objetivo do simpósio temático é apresentar um conjunto de pesquisas e práticas, assim como reflexões teórico-metodológicas, que apontam para propostas de abordagem da teoria crítica feminista no campo da arquitetura e urbanismo.

O contexto atual nos desafia a um reposicionamento diante das resistências e insurgências das mulheres na sociedade brasileira. Fruto das próprias contradições históricas da arquitetura e urbanismo, as questões relacionadas tanto à atuação das mulheres, como ao debate sobre o feminino, foram negligenciadas no Brasil. Por outro lado, há mais de uma década, pesquisas e práticas de projeto voltadas às abordagens de gênero vem ganhando relevância em países da Europa como Espanha, com destaque para o grupo Col.lectiu Punt 6 que concentra seu trabalho no urbanismo e planejamento urbano; e Áustria que surge como expoente importante em referências de projetos de habitação social em Vienna, produzido por mulheres, nos anos de 1990. Apesar das discussões em torno das demandas e interesses das mulheres, a partir dos anos 2000, se iniciar no movimento de reforma urbana (com a participação de arquitetas e urbanistas), pouco se avança para além da questão da representatividade e da titularidade preferencial para mulheres em projetos de moradia popular. Recentemente, diante da nova onda feminista global, iniciou-se questionamentos sobre a invisibilidade das mulheres em premiações importantes e, ao mesmo tempo, a expandir o interesse na temática de gênero. Foi o inicio do surgimento de pesquisas sobre arquitetas mulheres no ultimo século, e de pesquisas focadas na abordagem de gênero, sobretudo, em debates sobre assédio e violência contra as mulheres nos espaços e transportes públicos.

Nesse sentido, a proposição visa expor reflexões, pesquisas, práticas e os próprios desafios que tencionam a abordagem de gênero e que nos direcionam a possibilidades conceituais e teóricas na arquitetura e urbanismo. Assim, o primeiro trabalho a ser apresentado, com título “Por uma agenda de pesquisa sobre as mulheres e a cidade”, busca trazer para a mesa a importância de se levar em consideração a diversidade das mulheres, e como isso provoca novos significados para campo diante das invisibilidades e a insistência do enquadramento das mulheres no espaço domestico e seu papel no reprodução social. Deste modo, o trabalho aponta para importância de novas perspectivas sobre a urbanização das nossas cidades considerando novos arranjos familiares, além da própria mobilização e resistências por parte das mulheres na luta pelo direito à cidade.

Essa luta pode ser observada no trabalho seguinte, “Mulheres e direito à cidade a partir da luta dos movimentos de moradia“, no qual é possível analisar, a partir da prática dos movimentos de luta por moradia, como as relações entre cidade, classe, gênero e raça são transversais e indissociáveis na formação das desigualdades urbanas. Com isso, será discutida como a conquista da moradia abarca condições específicas do empoderamento até a autonomia econômica em relação a manutenção de um teto. No caso dos movimentos de moradia que lutam nas áreas centrais, o empoderamento e a autonomia vão de encontro a uma forma de apropriação diversa que as mulheres encontram quando se mantinham isoladas nas atividades domésticas da periferia. A facilidade, tanto de transporte como de acesso aos equipamentos relacionados ao uso cotidiano feminino da cidade (relacionado às atividades reprodutivas) modifica substancialmente a vida dessas mulheres.

O trabalho seguinte, “Espaços generificados de resistências: possibilidades contra a indiferença no urbanismo”, tem como objetivo discutir possibilidades de reflexões conceituais que contribuam para construção de ferramentas metodológicas em pesquisa e extensão. Discutindo a importância do debate articulado e engajado que envolva ensino, pesquisa e extensão, pretende-se expor o conceito de espaço generificado de resistência, inspirado nas reflexões de Gillian Rose e Henri Lefebvre, como um caminho que considere a própria experiência das mulheres, fruto de um processo de resistência ao modo de produção do espaço urbano capitalista, patriarcal e heteronormativo. Desta forma, se estabeleceria consequentemente também um processo de resistência sobre a suposta neutralidade científica, que tem justificado historicamente a indiferença à problemática de gênero na arquitetura e urbanismo.

Em “Afetos e desenho: um método de projeto feminino” é feita uma pergunta central: o que defendemos quando colocamos a questão de opressão de gênero nas cidades e nas práticas propsitivas? Após a apresentação de pesquisas que refletem aspectos mais conjunturais e conceituais, este trabalho busca dividir experiências de aplicação de um método de concepção de projeto participativo e feminino, que repensa as ferramentas e habilidades de arquitetas e discute a centralidade dos habitantes no processo de concepção de seus territórios. Esse grupo chama de feminino a necessidade de transformar sentidos, valores e modos de projetar frente às desigualdades sociais, às injustiças ambientais e contradições políticas contemporâneas. Aqui o debate sobre corpo, afeto e política estrutura a experiência prática do grupo.

A pesquisa de mestrado já concluída é o objeto da apresentação do trabalho “A mobilidade das mulheres em São Paulo: por que as mulheres usam pouco a bicicleta?” que traz um tema importante para ressignificação das mulheres no espaço urbano: a mobilidade. O trabalho busca discorrer sobre o modo como as desigualdades de gênero no espaço urbano se expressam através de padrões de mobilidade e dos modos de deslocamento com foco no uso da bicicleta como modo de transporte. O resultado pretendido da pesquisa refere-se a construção de uma espécie de perfil dos porquês das mulheres usarem ou não bicicletas em contextos urbanos, em especial o caso de São Paulo. Esse objetivo aponta para o desenvolvimento de métodos e abordagens qualitativas sobre mobilidade a partir das experiências de mulheres, em contraponto com as abordagens quantitativas, mais comuns em pesquisas na temática.

Desta forma, tentamos abranger um conjunto de reflexões que possam provocar um amplo debate sobre possibilidades e desafios da abordagem de gênero que considere teoria e práticas, como um caminho que suscite aspectos críticos e propositivos para o nosso campo.

 

TRABALHO 01:

Por uma agenda de pesquisa sobre as mulheres e a cidade

SANTORO, Paula

Diversas pesquisas norte-americanas e europeias, desde os anos 1970, apontam para a invisibilidade das mulheres na cidade e no planejamento urbano, mostrando as diferentes vivências das cidades, resultado direto da construção social e cultural sobre cada papel de gênero, da divisão sexual do trabalho e dos históricos processos de construção do urbano. Poucas são as que têm o Sul Global, ou ainda, a América Latina, como perspectiva. Estudos para a América Latina exigiriam uma revisão da literatura urbana estruturada sob chaves de investigação relativas às desigualdades de classes sociais, aos temas pobreza, desenvolvimento, globalização, em prol das que consideram os marcadores sociais da diferença – raça, nação, sexualidade, etc. –, as interseccionalidades, resignificando as formas anteriores de conceituação da exclusão socioterritorial.

Os artigos que tratam das mulheres e a cidade, observam seu papel na família, a domesticidade, e associam à cidade a ideia de “lar expandido”, levando consigo o espaço doméstico para o espaço público, reforçando dicotomias ao mesmo tempo que revisando suas divisões. Diversos trabalham o papel da mulher na luta por educação, especialmente por creches; pela moradia, centrada na ideia de que a mulher dá valor de uso para a habitação; são menos proprietárias, herdam propriedades mais do que compra, vende menos que homens, deve ser prioridade na titulação em políticas de urbanização e regularização fundiária.

No entanto, ao observar o Brasil das últimas duas décadas, dinâmicas recentes reposicionam temas no debate. As alterações na família brasileira mostram que menos da metade da população brasileira não é mais a família heteronormativa – mulher, homem e filhos –, tida como tradicional. As famílias monoparentais com filhos vêm crescendo e, dentro delas, as que mais crescem são mulheres com filhos (OLIVEIRA et al., 2015). Ainda, as famílias estão diminuindo, especialmente as sem filhos, e as mulheres morrem mais tardiamente que os homens. Esta nova demografia transfere a luta pela divisão do trabalho doméstico entre mulher e homem de famílias para uma luta pela maior presença do Estado no suporte à estas mulheres, para que possam ter autonomia. Ou ainda, políticas de auxílio às mulheres idosas, emergem como necessárias.

As alterações nas condições do trabalho e na evolução do grau de desigualdade da renda do trabalho, ao menos até 2010, trouxeram crescimento na renda per capita dos brasileiros e a participação do rendimento do trabalho na renda nacional aumentou, e reduziu o grau de desigualdade na distribuição pessoal da renda do trabalho em 10,7% (POCHMAN, 2012, p. 16). Este crescimento se deu principalmente em função do setor terciário que gerou 2,3 vezes mais empregos que o secundário (idem, p. 17). Na primeira década de 2000 a parcela dos ocupados com até 1,5 salário mínimo cresceu, chamados de “trabalhadores de salário de base”, chegando a cerca de 59% do total dos postos de trabalhos. Estes trabalhadores, com remuneração até 1,5 salários são na sua maioria mulheres (cerca de 60% das ocupações geradas), jovens (na faixa dos 25 aos 34 anos), não branca (4/5 foi absorvida por trabalhadores não brancos), com escolaridade até o ensino médio (68,3% do total) (idem, p. 32-36). Grande parte dos trabalhadores formais inseridos neste período foram mulheres, pobres, não brancas, com escolaridade baixa. Possivelmente o mesmo crescimento se deu em relação ao trabalho informal. Qual significado desta alteração na vida das mulheres e na vivência das cidades ainda está para ser compreendida. Estes dados exigem perspectivas insterseccionais para sua análise, não mais explicada a partir da chave da classe social.

Ainda, há um crescente revisitar de teorias a partir da perspectiva feminista, como por exemplo, teorias ligadas ao direito à cidade (TAVARES, 2015) e aos bens comuns (FEDERICI, 2014). Se os comuns correspondem a uma ideia que ganha relevância para a luta anticapitalista a partir das resistências de mulheres e homens à expansão das fronteiras do capital sobre os territórios (HARVEY, 2014), como um projeto político coerente, as mulheres e suas históricas e novas formas de cooperação social revisitam o termo e se apropriam desta luta.

E a luta ganha corpo e corpos, mais recentemente, pautando a luta feminista e problematizando-a. As mulheres historicamente estiveram na base do movimento social, seguem na luta por liderança, exigindo a definição de pautas femininas. Na mobilidade, é crescente a pauta feminina, enfrentando os desafios na segurança na mobilidade. Ao mesmo tempo, a agenda de luta por mulheres como representantes políticas ganhou força, trouxe pautas das mulheres para a cidade, e também foi apropriada pelos partidos, por vezes desassociando a representação de pautas que lutam pela autonomia feminina. Por isso, Marielle vive!

O espaço urbano é o espaço por excelência para a reconstrução ou remodelagem das relações entre os sexos. O processo de urbanização é afetado pelas relações de gênero – que incidem sobre a decisão por migrar, sobre como se estrutura a moradia que se dá partir dos papeis familiares e organizações comunitárias – seu planejamento pode ajudar na reorganização destas relações (MORA apud RISÉRIO, 2015, p. 265).

Referências bibliográficas

COMEGNO, M. C. “SP Mulheres em Dados”. São Paulo em Perspectiva, 17(3): 91-103, 2003.

FEDERICI, S. “O feminismo e as políticas do comum em uma era de acumulação primitiva”. MORENO, R. (org.). Feminismo, economia e política: debates para a construção da igualdade e autonomia das mulheres. São Paulo: SOF Sempreviva Organização Feminista, 2014, pp.145-158.

OLIVEIRA, M. C.; VIEIRA, J. M.; MARCONDES, G. dos S. “Cinquenta anos de relações de gênero e geração no Brasil: mudanças e permanências”. In: ARRETCHE, M. (org.). Trajetórias das desigualdades: como o Brasil mudou nos últimos cinquenta anos. São Paulo: CEM/Unesp, 2015, pp. 309-334.

Pochmann, M. Nova classe média? O trabalho na base da pirâmide social brasileira. São Paulo: Boitempo Editorial, 2012.

RISÉRIO, Antonio. Mulher, casa e cidade. São Paulo: Editora 34, 2015.

TAVARES, R. B. “Uma cidade diferente: Espaço Generificado de Resistência à Cidade-Mercadoria”. XVI ENANPUR, Belo Horizonte, 2015.

TRABALHO 02:

Mulheres e direito à cidade a partir da luta dos movimentos de moradia

HELENE, Diana

Os movimentos de moradia ganharam força durante o fim da ditadura militar no Brasil, quando acontecem as primeiras ocupações organizadas de terra, os primeiros movimentos de luta pela urbanização e regularização fundiária nas favelas e o nascimento do movimento dos “sem-teto” (Gohn, 1991). Com a redemocratização e o esgotamento do modelo do BNH, os movimentos de luta por moradia trouxeram à tona os graves problemas habitacionais brasileiros. Com o tempo, essas organizações passam a pautar a questão da moradia para além da casa em si, mas sua localização na cidade, demonstrando que a luta por moradia é também uma luta por direito à cidade. Como, por exemplo, a ocupação de prédios vazios em áreas centrais, próximo a áreas com infraestrutura e aos locais de trabalho, engendrando sua reconquista do direito de morar no centro (Helene, 2009).

As mulheres, sobretudo mães monoparentais, são uma grande maioria nessas organizações. Faltam dados efetivos, mas, em geral, elas ocupam cerca de 80% dos grupos. Além da associação direta do gênero feminino ao espaço doméstico, outros fatores mobilizam as mulheres como principais defensoras do direito à moradia. Entre eles, se destaca a “feminilização da pobreza”. De acordo com a PNAD/IBGE 2015, o rendimento médio mensal real de todos os trabalhos dos homens com mais 15 anos de idade foi de R$2058 (e de R$2509, no caso dos homens brancos) e o das mulheres, de R$1567 (e de R$ 1027, no caso de mulheres negras). Isso sem contar a quantidade de mulheres trabalhando sem remuneração ou desempregadas, em número consideravelmente maior que os homens. No caso das mulheres negras esse fato é ainda mais dramático. Elas recebem menos da metade do valor do salário dos homens brancos, são as mais suscetíveis ao desemprego e são o maior contingente de empregadas sem carteira assinada.

Em relação às atividades não remuneradas, mais de 90% das mulheres declararam realizar atividades domésticas. Os Termos “dupla jornada”, “acumulação” ou “conciliação de tarefas” mantém a ideia do trabalho da esfera reprodutiva, regenerativa e de cuidado como se fosse somente um apêndice do trabalho assalariado (Hirata, 2014). Sobrecarregadas de trabalho não pago e situadas marginalmente no mundo do trabalho (Federici, 2017; Perrot, 1988), o acesso ao mercado de moradia no Brasil, já inalcançável para muitas famílias, é ainda mais difícil quando se é mulher (Helene; Lazarini, 2018).

As dificuldades de morar na rua, se “virar” ou “morar de favor” também são mais complicadas para o gênero feminino. Não é apenas o perigo da violência sexual. Designadas ao posto daquelas que cuidam cotidianamente das crianças, idosos e outros, o espaço da casa alça uma importância muito maior que para o gênero masculino, que muitas vezes permanece fora desse espaço a maior parte do cotidiano familiar, trabalha em outra cidade/local, ou mesmo abandona completamente a família.

Isto é, para elas, a moradia significa muito mais que um abrigo. Mesmo quando se têm onde morar, a importância do espaço da cidade que se localiza a casa é sofrido de forma diferente entre os gêneros. A dinâmica de mobilidade do homem costuma ser mais pendular e linear, ele vai e volta da casa para o trabalho. A principal atividade dele diária é o trabalho produtivo, formal ou informal. Já a mulher, em geral, faz não só o trabalho produtivo como também é majoritariamente responsável pelo trabalho reprodutivo. Então tende a fazer viagens mais curtas e diversas, espalhadas durante o dia em horários diferentes. Por esses motivos, as desigualdades urbanas, a falta de infraestrutura e de iluminação nas ruas, entre outros exemplos são sofridos de forma mais dramática quando se é mulher (Gonzaga, 2011; Itikawa, 2015; Helene, Lazarini, 2018; Helene, Tavares, 2017; Tavares, 2012 e 2015; Tavares, Helene, 2018; Santoro, 2008).

Além disso, na urbanização desenvolvida pela sociedade capitalista os espaços e atividades relacionados à produção foram privilegiados sobre os espaços relacionados as tarefas reprodutivas e de cuidados (tarefas historicamente realizadas por mulheres, sobretudo mulheres negras). O advento do planejamento urbano funcionalista vai acentuar o rebatimento da divisão sexual do trabalho no espaço da cidade, aprisionando as mulheres em determinados lugares, principalmente ao separar e hierarquizar as áreas comerciais, industriais e residenciais (Silva, 2003). Subúrbios, cidades-dormitório, periferias e cidades-satélite são, ao mesmo tempo, espaços de habitação das classes mais pobres e territórios negligenciados pelas políticas urbanas: onde a infraestrutura é precária ou ausente, distantes dos centro e monofuncionais, não apenas marcados por classe, mas também por raça e gênero.

Nesse sentido, o empoderamento como sujeito político a partir da participação feminina nos movimentos de moradia abarca condições específicas. Primeiramente se dá a conquista do espaço público/político como participantes de um movimento político reivindicatório de direitos. As mulheres relatam como sua relação com o Estado, com as instituições e mesmo com seus maridos/companheiros/filhos/parentes mudou completamente após a participação no movimento. Mas é importante também destacar os ganhos relacionados a autonomia econômica. Em 2011, a relatora especial da ONU, Raquel Rolnik, lança a cartilha “Como fazer valer o direito das mulheres à moradia?”. A publicação destaca a importância da segurança de posse como um direito a ser garantido para as mulheres. A dependência econômica para pagar sua moradia costuma ser um dos principais fatores de manutenção de situações de violência doméstica. Isto é, para além das dimensões culturais, psíquicas e políticas, a “casa” não é apenas o cenário, mas, muitas vezes o protagonista de um “enredo trágico: muitas mulheres não conseguem pôr um fim na relação com o agressor simplesmente por não ter pra onde ir com seus filhos” (Rolnik et al, 2011, p. 11).

No caso dos movimentos de moradia que ocupam prédios em áreas centrais, podemos dizer ainda que acontece uma luta pelo direito à cidade contra a segregação socioespacial generificada. Nesse caso, os relatos colhidos demonstram como a qualidade de vida das mulheres mudou substancialmente ao não estarem mais isoladas na periferia. As facilidades de manutenção da vida cotidiana pela proximidade de serviços públicos e de postos de trabalho, face ao que descrevemos antes, modificaram profundamente a vida dessas mulheres.

Referências bibliográficas

FEDERICI, Silvia. Calibã e a Bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. Editora Elefante, 2017

GOHN, Maria da Glória. Movimentos Sociais e luta pela moradia. São Paulo: Edições Loyola, 1991.

GONZAGA, Terezinha de Oliveira. A cidade e a Arquitetura também mulher: planejamento urbano, projetos arquitetônicos e gênero. São Paulo. Editora Annablume, 2011

HELENE, Diana. A guerra dos lugares na ocupações de edifícios abandonados do centro São Paulo. Mestrado. São Paulo: Universidade Estadual de São Paulo, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, 2009

HELENE, Diana; TAVARES, Rossana. “Gênero e estudos urbanos, uma conciliação necessária” 11 Out 2017. ArchDaily Brasil. Acessado 27 Nov 2017. <https://www.archdaily.com.br/br/881263/genero-e-estudos-urbanos-uma-conciliacao-necessaria&gt;

HELENE, Diana; LAZARINI, Kaya. “Autonomie et émancipation: les femmes dans les mobilisations pour le droit au logement” In: Colloque Perspectives féministes sur le logement des femmes. UQAM, Montreal,2018.

HIRATA, Helena. “Gênero, classe e raça Interseccionalidade e consubstancialidade das relações sociais”. Tempo soc. [online]. 2014, vol.26, n.1, pp.61-73.

ITIKAWA, Luciana. Mulheres na periferia do urbanismo – Informalidade subordinada, autonomia desarticulada e resistência em Mumbai, São Paulo e Durban. CLACSO. IDEAs. CODESRIA. Buenos Aires, 2015,

LAZARINI, Kaya. Luta por moradia e autogestão em Buenos Aires: da crise à construção popular do hábitat. Mestrado. FAU-USP. São Paulo, 2014.

PERROT, Michelle. Os excluídos da História: operários. mulheres. prisioneiros. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1988

SANTORO, Paula F. “Gênero e planejamento territorial: uma aproximação”. In: Anais do XVI Encontro Nacional de Estudos Populacionais. Caxambu-MG: ABEP, 2008.

SILVA, Joseli Maria. “Um ensaio sobre a potencialidade do uso do conceito de gênero na análise geográfica”. Revista de História Regional, Ponta Grossa, 2003

TAVARES, Rossana e HELENE, Diana. “Como os problemas socioambientais nas cidades impactam a vida das mulheres?. In: Tribuna Rio por inteiro – Casa Fluminense, 2018.

TAVARES, Rossana Brandão. “Uma Análise das Desigualdades de Gênero em Favelas do Rio de Janeiro: Perspectiva do Reconhecimento para o Urbanismo”. In: Cadernos de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo. São Paulo, v. 13, n.2, p.42 – 57, 2012.

TAVARES, Rossana Brandão. Indiferença à diferença: espaços urbanos de resistência na perspectiva das desigualdades de gênero. Doutorado. Rio de Janeiro: UFRJ / FAU, 2015.

TRABALHO 03:

Espaços generificados de resistências: possibilidades contra a indiferença no urbanismo

TAVARES, Rossana

Esta proposta visa discutir as possibilidades, assim como rupturas possíveis na arquitetura e urbanismo a partir da teoria feminista. Partimos da constatação que para romper com o viés predominantemente heteronormativo e patriarcal no campo do urbanismo, é preciso investir em construção de ferramentas metodológicas em pesquisa e extensão de forma articulada e engajada, estabelecendo também um processo de resistência sobre a suposta neutralidade científica, que tem justificado historicamente a indiferença à problemática de gênero.

Atualmente, se projeta um campo cada vez mais favorável de formulação de metodologias atentas às resistências urbanas que se apresentam através de diversas formas de praticas espaciais (LEFEBVRE, 2000). Entre as temáticas mais pulsantes, não é mais possível ignorar a problemática de gênero no espaço urbano que leve em consideração a teoria feminista, já reconhecido como fundamental no campo da teoria crítica. É evidente que se amplia o interesse em pesquisa, como também urge a necessidade de desenvolver possibilidades de experimentação extensionista para que as questões de gênero penetrem no ensino da arquitetura e urbanismo. Nesse sentido, o conceito de espaços generificados de resistência proposto pelo trabalho de tese de Rossana Tavares (2015) se constitui como uma possibilidade de construção de ferramentas metodológicas, a partir da articulação do debate de movimentos feministas, a universidade e as práticas sociais das mulheres nas ruas. Até porque estamos num momento histórico favorável ao desenvolvimento dessa abordagem.

A proposta conceitual leva em consideração que a própria experiência das mulheres na cidade é um ato de resistência. Inclusive, alguns lugares se constituem mais como espaços generificados de resistência que outros, em função dos diferentes graus de vulnerabilidade impostos aos corpos das mulheres, de forma paradoxal. Ou seja, não é uma simples tensão pela segregação espacial dos nossos corpos no espaço privado, ou em bairros periféricos, em especial, de mulheres negras e pobres, mas um processo constante no espaço urbano, onde se articula espaço publico e privado, onde as mulheres buscam brechas para existir, seja como for. As diversas formas de violência sobre as mulheres: estupro, assédio, feminicídio, somadas às resistências frente à heteronormatividade, transparece o não reconhecimento (FRASER, 2006) das possibilidades e a diversidade do que é ser mulher, em corpos também diversos, e o urbanismo como prática sob a égide neoliberal ainda se mostra indiferente. Jovens, velhas, trans, lésbicas, bissexuais, queers, não importa, estes corpos no espaço urbano carregam em si processos, experiências e práticas sociais, culturais e políticas que se interpenetram no cotidiano. A epistemologia feminista tem contribuído para novos aportes teóricos, colocando em xeque a perspectiva androcêntrica e heteronormativa, travestida de universal, em todos os campos do conhecimento, e mais recentemente na arquitetura urbanismo no Brasil.

Uma dos aspectos centrais na teoria feminista é a imposição de um modelo de existência reinventado historicamente pelos processos de dominação, e questionado por feministas, não só através de narrativas políticas mas também através da busca de práticas transformadoras que colocam em xeque o ideal feminino. O processo de opressão e dominação sobre o corpo das mulheres nos coloca em um lugar marginal e dito feminino, seja no espaço privado (encarnado pelo espaço domestico), seja no espaço público (encarnado pela rua). A própria ideia socialmente construída de espaço urbano, de forma geral, coloca as mulheres no espaço doméstico enquanto os homens estão num lugar considerado central, o espaço público (MCDOWELL, 1999). O processo de resistência alcançado pela variedade de práticas sociais nos tornam “estranhas” e passíveis de serem violados ou mesmo menosprezado no espaço. Um menosprezo que não o do esquecimento, mas de nos silenciar, nos banalizar, para garantia da logica de produção do espaço vigente que nos impõe uma determinada marginalidade em paradoxo (ROSE, 1993).

Assim, a articulação da pesquisa e da extensão atentas aos espaços generificados de resistência pode se constituir como uma ferramenta metodológica significativa. Além disso, em grande medida, pesquisadoras sobre a problemática de gênero no urbanismo também se revelam militantes e articulam suas reflexões e experiências políticas no âmbito da pesquisa. Cada vez mais se mostra relevante desenvolver um debate comprometido e reflexões que apontem para contribuições criativas e associadas aos interesses das mulheres na contemporaneidade, haja vista que percebemos, em grande medida, que a segurança tem sido o principal tema quando se discute espaço urbano e mulheres. Somado a isso, uma insistente resistência, banalização e consequentemente, indiferença dos estudos sobre a perspectiva da mulheres presente em relatos de graduandas, mestrandas e doutorandas que têm pesquisado as particularidades temáticas de gênero na arquitetura e urbanismo

Desta forma, pretendemos apresentar considerações a respeito da pesquisa centrada na debate teórico sobre importância da articulação da teoria feminista e do espaço, levando em consideração aspectos e desafios contemporâneos para a superação das desigualdades de gênero. Assim, numa perspectiva de construção do conhecimento solidária, é possível construir possibilidades analíticas e propositivas que incorporem a dimensão social de gênero em nosso campo.

Referências bibliográficas

FRASER, N. “Da Redistribuição ao Reconhecimento? Dilemas da Justiça numa Era ‘Pós-Socialista’”. Revista dos Alunos de Pós-graduação em Antropologia Social da USP . São Paulo: Cadernos de Campo, n.14/15, 231-239.

LEFEBVRE, Henri. Le manifeste différentialiste. Paris: Ed. Gallimard, 1970.

______. La production de l’espace. 4ª Edição. Paris: Anthropos, 2000.

MCDOWELL, Linda. Gender, identity and place: understanding feminist geography. Minneapolis: University Of Minnesota Press, 1999.

MOLYNEUX, Maxime. Mobilization without emancipation? women’s interests, the state, and revolution in nicaragua. In: KROOK, Mona Lena; CHILDS, Sarah (org). Women, gender, and politics: a reader. Oxford: Oxford University Press, p. 21-28, 2010.

ROSE, Gillian. Feminist & Geography: The limits of geographical knowledge. Cambridge, Oxford: Polity Press, 1993.

SAFFIOTI, Heleieth. A mulher na sociedade de classes – mito e realidade. 3ª Edição. São Paulo: Editora Expressão Popular, 2013.

SANDERCOCK, Leonie. Towards cosmopolis: planning for multicultural cities. Wiley, Chichester: John Wiles & Sons, 1998a.

______. Space of insurgent citizenship. In: SANDERCOCK, Leonie (org.). Making invisible visible: a multicultural planning history. Berkely, Los Angeles, London: University of California Press, p. 1- 33, 1998b.

TAVARES, Rossana Brandão. Indiferença à diferença: espaços urbanos de resistência na perspectiva das desigualdades de gênero. Rio de Janeiro: UFRJ / FAU, 2015.

TRABALHO 04:

Afetos e desenho: um método de projeto feminino

GUIZZO, Iazana

É cada vez mais crescente o debate de gênero no campo da arquitetura e do urbanismo no Brasil. As mulheres têm colocado questões, denunciado práticas, levantado números e ocupado espaços que se apresentam ainda hoje na sua maioria “naturalmente” masculinos. Entretanto o que defendemos quando colocamos a questão de uma opressão de gênero nas nossas cidades e nas práticas de concepção dos ambientes construídos? Como a perspectiva feminina não se encerraria em uma luta identitária capaz até mesmo de contrapor outras lutas como as que questionam a sexualidade?

Ocupar espaços antes masculinos é um importante passo, mas talvez ainda seja necessário recriá-los. Para Deleuze (1992) uma minoria não é uma questão quantitativa, mas de contraposição aos modelos hegemônicos. O que há de diferente em uma concepção de projeto feminina das que tradicionalmente são feitas? Como ela escaparia aos modelos do campo da arquitetura e do urbanismo que de fato foram idealizados por uma lógica masculina e eurocêntrica?

A experiência de um coletivo no Rio de Janeiro chama de feminino a necessidade de transformar sentidos, valores e modos de projetar do nosso campo disciplinar diante do abismo social, ecológico, ético e político que nos encontramos. Criar caminhos mais processuais, autônomos, articulados, criativos e atentos aos seres vivos (humanos ou não) e a Terra (o coletivo desses seres) – ou escapar de modelos centrais nos quais a arquitetura é entendida como um objeto isolado e o território como algo apenas físico e funcional – é o que defendemos como feminino. Não trata-se, portanto, de uma luta identitária contra os homens, ou ainda, contra os homens brancos visto que no nosso caso as perspectivas ameríndias e afro-brasileiras também escapam aos modelos centrais e possuem forte respeito às vidas que habitam os territórios.

Entretanto trata-se de uma luta contra os modos de ser arquiteto que sustentam os inúmeros extermínios de vidas – sejam físicas, étnicas ou ecológicas – que se dão todos os dias. E esses modos violentos de criação de espaço não estão apartados de uma certa cosmovisão branca e masculina ou de certas apostas, ações, visões de mundo e efeitos que determinados modos de viver e desenhar provocam. O feminino nesse caso seria antes um contraste de cosmovisões tal qual entre os Yanomamis e o homem branco como explicitou o antropólogo Eduardo Viveiro de Castro em O Recado da Mata: “(…) hutukara e uruhi a: o mundo como floresta fecunda, transbordante de vida, a terra como um ser que ‘tem coração e respira’ (…), não como depósito de ‘recursos escassos’ ocultos nas profundezas de um sobsolo tóxico (…)” (CASTRO, 2015, p.16). É importante dizer que passamos pelo gênero e pela etnia para revelar a opressão feita por aqueles que se acreditam superiores por essas distinções e não para fazer delas as nossas. Somos afeitas as forças e não as formas.

É nessa perspectiva que o grupo desenvolveu um método de concepção de projeto participativo e feminino, que repensa as ferramentas e habilidades de arquitetas e faz dos habitantes (humanos ou não) ponto central do processo de concepção de seus territórios. Acompanhamos a mudança de paradigma de parte do campo da arquitetura e do urbanismo que já a mais de meio século busca não mais projetar para mas com o outro. Entretanto, o que seria exatamente projetar com o outro nessa radical alteridade encontrada no Brasil ou nesse contraste ativo de cosmovisões?

Essa não é uma questão simples, estar em uma roda de conversa com os habitantes não garante necessariamente um encontro entre os participantes da roda. Isso quando os habitantes falam, visto que os animais, as plantas, os rios, entre outros se comunicam de outras maneiras. Um encontro é um agenciamento entre corpos, é uma composição afetiva ou a criação de “noções comuns” como explicitou Spinoza (2008) e Deleuze (2002). E para conceber um projeto de fato com o outro, esse encontro não seria apenas entre o especialista e o habitante mas entre o território do especialista e o território do habitante, ou seja, tudo o que engendram suas cosmovisões e, também, o grau de disponibilidade para a transformação com o choque entre elas. Seria um “honrar a experiência (…) que nos anima, que nos faz testemunhar o que não somos nós” (STENGER, 2017, p.11).

A fim, então, de honrar a experiência ao conceber projetos a metodologia desse escritório/coletivo de moças afirma: o território não apenas como uma porção de terra mensurável mas como um modo de estar no mundo ou como existencial; a concepção do ambiente construído como um agenciamento entre corpos; um certo estado de presença corporal do especialista e do habitante como habilidades necessárias para esse agenciamento; o espaço ativo e jamais neutro ao sempre afirmar uma tendência, uma política, ao ter seus efeitos como produtores parciais de subjetividades; a necessária passagem do pedido para a demanda ou uma construção de demanda a partir dos afetos (antes do desenho e da obra) como uma importante etapa participativa da concepção de projeto; as oficinais sensoriais como ferramentas dessa construção de demanda que apostam no corpo vibrátil, aquele da experiência das sensações como conceituou Suely Rolnik; e o desenho de projeto assumido pelo especialista, autoral mas comum (no sentido de comunitário) aos habitantes.

Elas partem da questão: que mundo queremos habitar? Para trabalhar ela e construir uma demanda real de projeto são propostas oficinas sensoriais junto aos habitantes. Usamos dispositivos de diversas áreas do conhecimento como dança, práticas somáticas, cinema, teatro, artes plásticas, filosofia e literatura a fim de convidar habitante e especialista para ativar uma certa atenção, afetos, memórias e desejos que indicam percursos a questão colocada. E de uma reforma de um apartamento padrão passou-se para a criação da Casa Mistério; de uma reforma de um templo religioso para uma luta contra a intolerância a exemplo do Ilê Omiojuarô; e de um pedido de placa passou-se para a demanda de uma praça como foi o caso da comunidade da Vila Autódromo. O Feminino seria a defesa de um território político-afetivo.

Referências bibliográficas

DELEUZE, Gilles. Conversações, 1972-1990. São Paulo: Editora 34, 1992.

DELEUZE, Gilles. Espinosa: filosofia prática. São Paula: Escuta, 2002.

GUATTARI, Félix. Caosmose: um novo paradigma estético. São Paulo: Editora 34, 1992.

KOPENAWA, Davis; BRUCE, Albert. A Queda do Céu: palavras de um xamã Yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

ROLNIK, Suely. Subjetividade em obra: Lygia Clark, artista contemporânea. Projeto História: Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados de História. São Paulo, v.25, 2002.

SPINOZA, Benedictus de. Ética. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2008.

STENGERS, Isabelle. Reativar o Animismo. Chão de Feira, 2017.

TRABALHO 05:

A mobilidade das mulheres em São Paulo: por que as mulheres usam pouco a bicicleta?

HARKOT, Marina

Estudos mais recentes sobre os padrões de mobilidade da metrópole de São Paulo analisam séries históricas de pesquisas de mobilidade urbana, ou desenvolveram pesquisas específicas sobre modos ativos, diferenciando gênero, produzindo uma base robusta que permite afirmar que as mulheres têm menor índice de mobilidade, são maioria no transporte à pé e coletivo sobre pneus frequentemente passageiras e menos motoristas de carros. (SVAB, 2016)

Variáveis como grau de escolaridade, renda familiar, local de moradia, situação familiar (família sem/com filhos, monoparentais, etc.), complexificam as análises quantitativas e indicam que há poucos estudos qualitativos sobre aspectos sociais, culturais e de comportamentos que expliquem a mobilidade encontrada e que aprofundem as motivações das mulheres por estes modos de transporte.

Desde 2010, políticas urbanas tentam alterar o paradigma do carro que construiu historicamente as mentes e as cidades brasileiras. Uma gama que envolve legislação federal e municipal atual no tema da mobilidade e mudança do clima pressiona para o incentivo aos modos ativos – bicicleta e à pé. A bicicleta tem um alto potencial de inclusão social – tem baixo custo, permite maior mobilidade, etc. –, é interessante para as viagens ditas “tipicamente femininas” (mais viagens, menores e em cadeia) e é menos poluente que os outros modos. Pode produzir efeitos positivos no clima, e evitar os efeitos perversos da mobilidade por carros na ocupação do espaço urbano.

O planejamento cicloviário da cidade de São Paulo, pressionado por movimentos cicloativistas, chegou a implantar mais de 400 km de ciclovias e ciclofaixas, além de políticas de diminuição de vagas de garagem, de vagas-vivas, de ruas abertas de lazer, disputando o espaço dos carros para a mobilidade ativa e para o uso público. No entanto, as pesquisas não apontam para uma correlação direta – onde se ofertou infraestrutura, mais mulheres a migraram para o modo bicicleta, mas ainda são poucas (Ciclocidade) –, o que levanta a questão: quais são as resistências das mulheres, o que explica estas resistências, e como devem ser enfrentadas, para que elas migrem para o modo bicicleta para fazerem suas viagens em São Paulo?

Este trabalho busca olhar para como a desigualdade de gênero no espaço urbano se expressa através de padrões de mobilidade e dos modos de deslocamento – em especial através do uso da bicicleta como modo de transporte. Ele se baseia na literatura recente nos campos de sociologia urbana e estudos de gênero para desenvolver um modelo de porque mulheres usam ou não usam bicicletas em contextos urbanos e, mais especificamente, em metrópoles latino-americanas de dimensões e com características como as de São Paulo. Ele também utiliza uma metodologia para estudar a mobilidade e analisar a infraestrutura urbana que leva em consideração os fatores culturais e subjetivos que subjazem as escolhas das pessoas de como se locomover na cidade, e que estão na base de como relações de gênero impactam os usos diferentes que mulheres e homens fazem da cidade. Assim, se busca olhar para além das variáveis quantitativas e das características de infraestrutura urbana, considerando também a lógica das percepções, emoções e afetos que moldam nosso relacionamento com a cidade e considerando como cada indivíduo está inserido dentro de estruturas/lógicas de família que devem ser levadas em consideração por planejadores urbanos se buscamos construir cidades mais justas e democráticas, bem como quais são as questões que dificultam ou impedem uma aderência mais ampla aos modos de transporte mais sustentáveis, tal qual a bicicleta.

Referências bibliográficas

ALDRED, Rachel et. al. “Cycling provision separated from motor traffic: a systematic review exploring whether stated preferences vary by gender and age”. In: Transport Reviews, 37:1, 29-55, 2016. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1080/01441647.2016.1200156>. Acesso em: 25 fev. 2018.

HANSON, Susan. “Gender and mobility: new approaches for informing sustainability”. In: Gender, Place & Culture: A Journal of Feminist Geography, 17:1, 5-23, 2010.

LAW, Robin. “Beyond ‘women and transport’: towards new geographies of gender and daily mobility”. In: Progress in Human Geography. 23,4, p. 567–588, 1999.

SANTORO, Paula Freire. “Gênero e planejamento territorial: uma aproximação”. In: XVI Encontro Nacional de Estudos Populacionais, Caxambu,2008

SIQUEIRA, Lucia de Andrade. Por onde andam as mulheres: percursos e medos que limitam a experiência de mulheres no centro do Recife. Dissertação de mestrado, UFPE, Recife, 2015.

SOUZA, Yuri Vasquez. Quando as Rodas Conquistam a Cidade: Cultura, Tensões, Conflitos e Ações na Prática do Ciclismo em São Paulo. Dissertação de mestrado, Pontifícia Universidade Católica, São Paulo, 2016.

SVAB, Haydée. Evolução dos padrões de deslocamento na Região Metropolitana de São Paulo: a necessidade de uma análise de gênero. Dissertação de mestrado, Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2016.

TAVARES, Rossana Brandão. “Práticas sociais de resistência na perspectiva de gênero contra indiferença à diferença: por um planejamento de possibilidades”. XVII ENANPUR, São Paulo, 2017.

VASCONCELLOS, Eduardo A. Transporte urbano, espaço e eqüidade: análise das políticas públicas. São Paulo : Annablume, 2001.

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