Grupo de Estudos – SOBRE PRESENÇAS E AUSÊNCIAS: O FEMININO NAS ARTES

Guestpost (autoras convidadas): Valéria Garcia e Helena Rizzatti

 

Tratar da ação feminina no espaço artístico é uma missão inquietante, desafiadora e apaixonante. Foi durante as aulas das disciplinas História da Arte I e II, no curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Ribeirão Preto, que a docente Profa. Dra. Valéria Garcia notou como o tema instigava as alunas, e alguns alunos, e começou a desenhar o tema central do grupo de estudos.  A pergunta motivadora foi: qual o espaço da mulher no mundo das artes?

A questão foi lançada no sentido de sensibilizar e envolver discentes de graduação numa empreitada que desde o início preza a valorização da ação investigativa individual des participantes. Questionamentos decorrentes: Por que as mulheres são lembradas como inspiração para a criação, mas não como criadoras? Por que foram musas para telas, esculturas, fotografias ou ainda heroínas em romances, porém, raramente são reconhecidas como pintoras, fotógrafas ou escritoras? Por que foram “artefatos culturais”, mas não participaram da “produção de cultura”? Quais foram àquelas e quais as condições que permitiram a subversão dos limites da tradição masculina ativa e do feminino como passivo?

Sobre os questionamentos abertos são lançados os fundamentos para a formação de jovens pesquisadores e, simultaneamente, demarca-se o método de trabalho. Trata-se de proporcionar o estímulo necessário para que estudantes participem do processo de produção e difusão do conhecimento no ambiente universitário. Assim, partilha-se o juízo de que projetos acadêmicos avançam para além dos questionamentos iniciais, quando as perguntas propostas despertam uma inquietação genuína.

Porquanto, não é exatamente a dúvida, porém o desconforto e a perturbação por ela promovidos que produzem as energias que movimentam os empreendimentos de pesquisa até a consolidação dos objetivos propostos. Por este caminho, situações particulares, sujeitos, obras de arte e espaços de ação podem transformar-se em tema e, posteriormente, em pesquisa exequível no âmbito de um curso de graduação. Essa lógica da inquietação que admite resultados aberto advindos da premissa de livre-arbítrio concedida aos discentes serve ao projeto temático que aceita um recorte temporal imenso, desde o século XV até o período contemporâneo, e desdobra-se em possibilidades de investigação infinitas. Assim, a proposição da questão norteadora abriu-se para ser lapidada, recortada, esmiuçada, lida por suas linhas, entrelinhas e avessos nos trabalhos decorrentes da proposta apresentada.

Com a aprovação institucional do grupo em março de 2017, iniciou-se o trabalho de orientação das e dos discentes estimuladas/os em compreender os espaços, ações, interditos e dificuldades enfrentadas por mulheres inseridas nos contextos de produção artística. No momento, os trabalhos em desenvolvimento são: Tintas e cores de Adriana Varejão; Elizabeth Siddal – mulher, musa e artista dos Pré-Rafaelitas; Mônica Nador – Paredes-Pinturas – Arte e cidade. As alunas envolvidas são Lauana Fernanda Brito Gomes, Thayná Brandão Quirino Fabris e Letícia Araújo França. Trata-se de pesquisas em desenvolvimento, contudo, os primeiros passos indicam a importância de avaliação de situações particulares com o objetivo de compreender, documentar e construir reflexões sobre as dificuldades femininas na rígida estrutura de inserção e ascensão dos espaços artísticos.

DAS REFLEXÕES TEÓRICAS PARAS AS PRÁTICAS

Es alunes que estão envolvides no grupo de pesquisa vem realizando trabalhos de diferentes disciplinas a partir das reflexões fomentadas pelo grupo. Entre estes trazemos aqui o trabalho, Perspectiva da Cor, que tem maior ênfase na pesquisa sobre a obra da artista Adriana Varejão intitulada ‘O Polvo’.

Foi uma instalação apresentada em julho de 2017, no campus da Universidade de Ribeirão Preto, tendo como referência artística as expressões de Arte Pública, estudadas na disciplina História da Arte III. A expressão assimila a associação entre projeção e performance.

O trabalho apresentou uma expressão crítica sobre todas as formas de preconceitos propondo uma perspectiva aguda também sobre racismo, homofobia e outros preconceitos presentes em nossa sociedade.

Cada etapa da instalação é uma resposta para a pergunta “Qual é a sua cor?”.

O manifesto foi realizado de forma visual, criando através do uso de projetor imagens e palavras enquanto o grupo apresentava um discurso.

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Fig. 4. Poster Perspectiva da Cor. Arte: André Argente. Montagem: Lauana Brito Gomes. Instalação apresentada como trabalho de fechamento da disciplina História das Artes III, junho 2017.

A ideia principal foi colorir cada membro a partir de seu texto, mostrando um diálogo entre cor, sentimento e identidade, criando com luz uma narrativa, declamada sobre as dores pessoais de cada um. Também estava incluso na instalação, retratos de cada um, com cores e manchas que representavam miscigenação, aceitação LGBT e quebra dos padrões machistas. No final da apresentação o público foi convidado a estourar as bexigas e dentro delas encontraram um bilhete com uma homenagem a alguém que já sofreu por conta do preconceito.

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Fig. 5. Participação discente, Lauana Brito Gomes. Instalação Perspectiva da Cor. Trabalho de fechamento da disciplina História das Artes III, junho 2017.

 

Assim, consideramos que a existência desse grupo de pesquisa no curso de Arquitetura e Urbanismo da Unaerp fomenta a reflexão e o debate sobre os temas abarcados por eles. Cada vez mais vemos surgir no curso trabalhos que levantam os questionamentos sobre o papel da mulher na sociedade, a necessidade de refletirmos sobre o racismo presente no país e de que maneira as minorias silenciadas, como gays, travestis, transexuais, entre outras, podem e precisam abrir espaço em todos os ambientes de aprendizagem, desde às escolas até as instituições de ensino superior.

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Fig. 7. Beata Beatrix (1864-1870), Dante Gabriel Rossetti (1828-1882) (1829-1862).
Óleo sobre tela: 86,5 x 66 cm. Tate Britain, Londres. Fonte: http://www.tate.org.uk/art/artworks/rossetti-beata-beatrix-n01279. Acesso em: 25 fev. 2017.

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Fig. 8. Tintas preparadas por Adriana Varejão para a série Polvo, 2014. Fonte: http://www.adrianavarejao.net/pt-br/category/serie/polvo. Acesso em 09 fev. 2017.

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Fig. 9 Espaço JAMAC (Jardim Miriam Arte Clube). Foto de Letícia França. Fev/2018

***
SOBRE AS AUTORAS:

Valéria Eugênia Garcia

Universidade de Ribeirão Preto (UNAERP) – valgarcia2003@gmail.com

Arquitetura e urbanista com mestrado e doutorado realizados Escola de Engenharia de São Carlos (EESC-USP). Leciona no curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Paulista (UNIP Campus Vargas) e na Universidade de Ribeirão Preto (UNAERP). Coordena o grupo de pesquisa Feminino nas Artes organizado no ano de 2017.

valgarcia2003@gmail.com

Helena Rizzatti

Geógrafa, mestra e doutoranda em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), leciona no curso de Arquitetura e Urbanismo na Universidade de Ribeirão Preto (UNAERP) nas disciplinas de Planejamento Urbano e Planejamento Regional, e Atelier Integrado de Arquitetura, Paisagismo e Urbanismo. Desenvolve sua pesquisa de doutorado sobre o processo de periferização brasileiro, com ênfase na análise das ocupações urbanas e das questões de gênero.

helenarizzattifonseca@gmail.com

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