Jane Jacobs: uma mãe urbanista

jacobsDentre seus diversos ativismos contra projetos de intervenção urbana que arrasavam comunidades e bairros com projetos modernistas, sua maior batalha foi uma luta contra o projeto Lower Manhattan Expressway, de Robert Moses que destruiria o entorno do seu bairro em Nova York, na década de 1960. Em uma das audiências sobre a realização da intervenção urbana de Moses, as argumentações contra o projeto feitas por Jane Jacobs (1916-2006) foram desqualificadas pelo urbanista modernista acusando-a de “MÃE”:

“Não há ninguém contra isso [o “Lower Manhattan Expressway”] – NINGUÉM, NINGUÉM, NINGUÉM, a não ser um monte de … um monte de MÃES!” – Fala de Robert Moses, em uma audiência pública sobre seu projeto urbano.

O projeto consistia em uma rodovia elevada de 10 pistas conectando um túnel ao oeste às pontes de Williamsburg e Manhattan no leste. Exigia a demolição de 416 edifícios e teria destruído o que é hoje o Soho e a Little Italy (áreas vistas na época como espaços “degradados”), bem como vários outros bairros, deslocando cerca de 2200 famílias e cerca de 800 estabelecimentos comerciais com cerca de 10.000 trabalhadores. A rodovia também teria destruído grande parte do espaço urbano circundante, como a famosa praça Washington Square, onde Jacobs levava seus filhos para brincar.

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Propaganda do projeto Lower Manhattan Expressway de Roberto Moses

Jane Jacobs participava ativamente nos protestos contra o projeto e foi ganhando notoriedade. Seus filhos coletavam assinaturas de porta em porta contra a intervenção e a ajudavam a distribuir panfletos contra a via expressa. Criou uma intervenção urbana na qual as crianças amarraram uma fita no entorno da praça Washington Square, uma sátira à prática de “cortar a fita” em inaugurações de novas construções feitas por políticos e empreendedores. Seu protesto mais famoso foi uma outra audiência, em 1968. Jacobs mal chegou ao evento, sentou-se na primeira fila e  reclamou em voz alta: “Marcaram às nove da noite para que as mães não pudessem vir?”. Pouco depois, um coro de manifestantes pediram “Queremos Jane!”, que pegou o microfone sem ser convidada e dirigiu-se ao público: “Que tipo de administração pode considerar destruir as casas de duas mil famílias em um momento como este?” e “Se o projeto da via expressa passar haverá anarquia!”. Tentaram retirá-la do plenário e ela respondeu ao presidente da mesa: “Não estou falando com o senhor, estamos falando para nós mesmos [moradores e manifestantes] a noite inteira”. Em seguida incentivou alguns manifestantes a subir ao palco, que arrancaram as atas da audiência das mãos da relatora que registrava o processo e as picaram em milhares de pedacinhos. Ela continuou no microfone: “Não houve audiência, não há provas, acabamos com esta farsa […] Sem audiência pública, não há via expressa!”. O chefe do departamento de transportes que presidia a sessão chamou a polícia e ordenou: “Prendam essa mulher”. Jane Jacobs foi presa acusada de “incitar distúrbios e obstruir a administração pública” e proibida de participar de futuras audiências. Ficou presa por menos de 24 horas. Durante horas, manifestantes ficaram de fora do recinto da polícia cantando: “Queremos Jane!”, período em que aproveitou para mandar uma carta à sua mãe: “Estou presa de novo, mãe [meses antes, ela tinha sido presa por protestar contra o alistamento obrigatório para a Guerra do Vietnã]! Temo que você vá ter uma filha engaiolada de novo por conduta desordeira. Desejo que você não pense mal de mim!“. Nessa época ela tinha 52 anos.

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Jane Jacobs em manifestação na Washington Square Park, Nova York, 1963. Fotografia: Fred W McDarrah / Getty Images

Após esse evento, que virou capa de quase todos os jornais da cidade, Jane Jacobs ficou famosa e o projeto de Moses foi cancelado*. Uma mulher que não baixou a cabeça para as poderosas pranchetas dos planejadores urbanos da época tornando-se uma das mais influentes urbanistas norte-americanas do século passado, mesmo sem ter diploma universitário na área. Uma mãe em um campo dominado por homens, que enfrentou diversas formas de depreciação e crítica. Acusada de “dona de casa” e de “louca”, suas ideias foram por muito tempo colocadas como “absurdas”.

Mãe de 3 filhos, Jane Jacobs vivia a cidade a partir da realização de certas atividades no seu dia-a-dia conectadas com as tarefas destinadas ao gênero feminino na reprodução da vida cotidiana (alimentação, limpeza, cuidado, etc). E pode trazer à tona uma crítica ao que se produzia pelo urbanismo até então, feito sobretudo por homens brancos de países do norte, que não estavam presentes nos espaços da reprodução cotidiana da vida na cidade, e sim em seus escritórios, vendo e desenhando a cidade “de cima”.

“Planejadores e projetistas são, em sua maioria, homens. Estranhamente, eles criam projetos e planos que desconsideram os homens como integrantes da vida diária e normal de onde quer que haja moradias.” (JACOBS, 2000, p.91)

Jacobs, em sua bicicleta, lutou contra o projeto de cidades para carros

Jane Jacobs e sua bicicleta. Ela foi uma das grandes primeiras críticas às cidades pensadas para os automóveis.

Durante a sua vida, ela não apenas defendeu um melhor planejamento urbano, mas também a equidade de salário para as mulheres e o seu direito à sindicalização. Ela recusou mais de trinta prêmios e honorários destinados à ela, sempre dando crédito às pessoas que trabalhavam nas linhas de protesto. Jane Jacobs criticava principalmente o caráter autoritário dos projetos urbanos.

Dez anos antes da batalha contra Robert Moses, em duas palestras nas universidades de Pensilvânia e  Harvard, nas quais ela era única mulher a falar junto a grandes nomes como Louis Kahn, I. M. Pei e Lewis Mumford, já ficaria famosa por criticar a produção urbanística dos arquitetos do período. Pouco depois ganha uma bolsa da Fundação Rockefeller para escrever seu famoso livro “Morte e Vida nas grandes cidades” (“The Death and Life of Great American Cities”, 1961) que virou uma bibliografia básica para o urbanismo a partir de então, e se constitui como uma grande crítica às intervenções modernistas, consideradas como “verdades” intocáveis na época.

Realizava sua teoria na prática e escreveu que a melhor maneira de perceber o que uma cidade precisa é olhar para a forma como as pessoas a usam: “Se você sair e caminhar, você vê todos os tipos de outras pistas”. Sua contribuição principal foi a crítica aos espaços monofuncionais, a falta de diversidade e de gente nas ruas, e sua implicação para vitalidade, segurança e manutenção coletiva das crianças e outros habitantes “esquecidos” no planejamento oficial. Sua crítica ecoa com os debates feministas atuais em torno do planejamento urbano, que afirmam que o zoneamento funcionalista modernista separou e distanciou os locais de “trabalho” das zonas residenciais, acentuando o espelhamento da divisão sexual do trabalho no espaço urbano, isolando as mulheres nos espaços destinados à esfera doméstica e afastando ainda mais os homens das tarefas cotidianas de reprodução da vida.

Os locais de trabalho e o comércio devem mesclar-se às residências se se tiver a intenção de que os homens, como, por exemplo, os que trabalham na Rua Hudson ou próximo dela, estejam perto das crianças na vida diária – homens que participem da vida cotidiana normal […] A oportunidade (que na vida moderna se tornou um privilégio) de brincar e crescer num mundo cotidiano composto tanto de homens como de mulheres é possível e comum para crianças que brincam em calçadas diversificadas cheias de vida […] Os urbanistas parecem não perceber quão grande é a quantidade de adultos necessária para cuidar de crianças brincando. Parecem também não entender que espaço e equipamentos não cuidam de crianças. Estes podem ser complementos úteis, mas só pessoas cuidam de crianças e as incorporam à sociedade civilizada.” (Ibidem, passim)

Ela criticava também a “maldição das zonas de fronteira desertas”, realizada sobretudo pela falta de uso misto e da construção de grandes enclaves urbanos, como grandes conjuntos habitacionais. Um problema com uma implicação específica para circulação urbana de mulheres, relacionada ao perigo da violência sexual. Tanto para esse quanto para outros problemas de segurança Jacobs defendia os famosos “olhos da rua”:

“Manter a segurança urbana é uma função fundamental das ruas das cidades e suas calçadas […] a primeira coisa que deve ficar clara é que a ordem pública – a paz nas calçadas e nas ruas – não é mantida basicamente pela polícia, sem com isso negar sua necessidade. É mantida fundamentalmente pela rede intrincada, quase inconsciente, de controles e padrões de comportamento espontâneos presentes em meio ao próprio povo e por ele aplicados […] Devem existir olhos para a rua, […] os edifícios […] devem estar voltados para a rua. Eles não podem estar com os fundos ou um lado morto para a rua e deixá-la cega. […] A calçada deve ter usuários transitando ininterruptamente, tanto para aumentar na rua o número de olhos atentos quanto para induzir um número suficiente de pessoas de dentro dos edifícios da rua a observar as calçadas” (Ibidem, p. 30 – 36).

Outro importante tema de seu livro, defendido sobretudo no “Capítulo 4 – Os usos das calçadas: integrando as crianças”, trata da importância das crianças participarem da vida pública urbana. Em vez de ficarem isoladas em espaços “específicos” como o espaço privado da casa ou parquinhos/escola/creche, é no dia a dia na cidade que a criança aprende sobre a vida pública, sobre a coletividade e a democracia:

“Na prática, é só com os adultos das calçadas que as crianças aprendem – se é que chegam a aprender – o princípio fundamental de uma vida urbana próspera: as pessoas devem assumir um pouquinho de responsabilidade pública pelas outras, mesmo que não tenham relações com elas. Trata-se de uma lição que ninguém aprende por lhe ensinarem. Aprende-se a partir da experiência de outras pessoas sem laços de parentesco ou de amizade íntima ou responsabilidade formal para com você, que assumem um pouquinho da responsabilidade pública por você. […] Trata-se de uma lição de urbanidade que as pessoas contratadas para cuidar de crianças não têm condições de ensinar, porque a essência dessa responsabilidade é que ela seja exercida sem a necessidade de um contrato. Trata-se de um ensinamento que os pais, por si sós, são incapazes de dar. Se os pais assumem uma pequena responsabilidade por estranhos ou vizinhos numa sociedade em que ninguém a assume, isso vem a significar que esses pais são embaraçosamente diferentes e intrometidos, e não que essa seja a conduta correta. Tal ensinamento deve emanar da própria  sociedade, e nas cidades, quando isso ocorre, é quase sempre no período em que as crianças estão brincando espontaneamente nas calçadas.” (Ibidem, p. 65)

Feliz dia das mães, para todas mães, urbanas e rurais, que entendem, lutam e reafirmam a importância do território para reprodução cotidiana da vida.

* A propósito: a construção do Minhocão de São Paulo (Elevado Presidente João Goulart), de proporções semelhantes ao projeto de Robert Moses, foi aprovada meses depois de Jacobs ser presa nos EUA. Uma pena não termos tido algo parecido para impedir a construção dessa estrutura que causou enorme impacto na paisagem urbana da região central da cidade paulistana.
Para conhecer mais sobre a batalha de Jacobs e Moses, assista ao documentário abaixo sobre essa história (em inglês):

 

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