Nola Darling uma mulher resistindo ao machismo, ao racismo e a gentrificação do seu bairro natal

A nova série dirigida por Spike Lee “Ela quer tudo”, do NETFLIX, trás como personagem principal uma mulher incrível da qual acompanhamos a cada episódio sua luta para se tornar uma artista reconhecida e uma mulher sexualmente e afetivamente livre. Nola Darling é uma mulher negra crescida em Fort Greene, no Brooklyn, Nova York. O bairro não é apenas um pano de fundo da história, mas também, na minha opinião, o segundo personagem principal da trama. O diretor, também nascido no local, aprofunda neste seriado uma série de questões sobre o bairro, que já tratava em outras produções suas como o clássico “Faça a coisa certa” de 1989, por exemplo.

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Nola carrega um pequeno colar com o nome Brooklyn em seu pescoço e quase todos episódios pontuam a questão da gentrificação feroz que o bairro tem enfrentado nos último anos. A abertura do seriado é uma série de fotos do bairro, que a cada episódio se modifica, mostrando imagens antigas do Brooklyn com seus moradores quase 100% negros, e a falta de investimentos públicos na época, como a questão da ausência de coleta de lixo e a falta de espaços de lazer; misturadas a fotos atuais, com os grandes novos prédios de apartamentos descolados e as novas ocupações gentrificadoras. Os diálogos entre os personagens constantemente se referem as altas nos preços e as novas configurações do “imperialismo hipster” que mudam também a cultura local, como as reclamações em relação ao “barulho” causado pela vida boemia e a música de rua, por exemplo. Nesse contexto, Nola luta para conseguir se firmar como artista e conseguir pagar seu aluguel, do qual a proprietária constantemente joga na sua cara que poderia estar cobrando 4 vezes mais caro dos brancos que buscam apartamentos na vizinhança. Em um episódio seu pai afirma que, mesmo sem ter muito dinheiro, não vai ceder as ofertas milionárias de vender seu apartamento: “eu não vou sair do Brooklyn”. Existe também a tensão constante entre uma nova vizinha branca de Nola e seu amigo artista e morador de rua, também crescido no bairro, que “perturba” as expectativas da nova moradora em relação a como se deve ocupar o espaço público em frente a “sua propriedade”. Um dos episódios, em especial, tem o nome “#ChangeGonCome (GENTRIFICATION)” (episódio 9) e trata de forma ainda mais dramática essas questões.

Logo no início da série, ao voltar para casa sozinha pelos dois quarterões de distância que a separam da casa de sua amiga, Nola sofre um assédio violento na rua por parte de um homem. De modo a se curar do trauma, a personagem usa de sua arte e cria uma série de lambe-lambes que cola pelas ruas. Sobre fotos variadas do rosto de diferentes mulheres negras ela coloca frases que começam sempre da mesma forma: “Eu não me chamo gracinha”, “Eu não me chamo benzinho”, “Eu não me chamo pedaço de mal caminho”, “Eu não me chamo psiuuuuuu”, “Eu não me chamo docinho”, “Eu não me chamo gostosa”, “Eu não me chamo boazuda”, etc; e a mais forte de todas, que ela ouviu no dia do seu ataque: “Eu não me chamo negra vadia filha da puta”.

frames do seriado mostrando os lambe-lambes de Nola

O seriado é uma reconstrução de um dos primeiros filmes de Spike Lee, com o mesmo título e original de 1986. No entanto, na série lançada em 2017, a arte de Nola não é apenas a ocupação da personagem, mas uma parte essencial da história. O diretor se inspirou no trabalho de uma jovem artista feminista do Brooklyn, Tatyana Fazlalizadeh, que despertou o interesse de Lee com sua campanha de lambe-lambes “Stop Telling Women To Smile”. Seu trabalho busca levantar questões sobre o assédio de rua direcionado as mulheres negras – ainda mais agressivo e perverso que o assédio a mulheres brancas – em função do racismo e da sexualização da mulher negra. E para isso ela escolhe a própria rua como plataforma de luta (veja mais nas fotos abaixo ou no seu site: http://www.tlynnfaz.com). Além de inspirar a complexificação da personagem principal, Fazlalizadeh foi recrutada por Lee tanto para criar as pinturas feitas por Nola Darling na série como para ser consultora de construção da personagem.

Intervenções de Tatyana Fazlalizadeh na cidade (fonte: site da artista)

No seriado, pouco depois da intervenção nas ruas do Brooklyn feita por Nola, em resposta a manifestação feita por ela, algum pichador escreve sobre sua arte as palavras “Vadia chupe meu pau” e “Puta” de forma a desmoraliza-la. Além disso, depois do ataque, os personagens homens com os quais ela se relaciona de forma mais íntima, seus três namorados, passam a tratá-la de forma extremamente cerceadora chegando a sugerir que ela deve se vestir diferente e não andar em qualquer lugar. Nola afirma que “não vai ser intimidada” por um sistema machista e racista que tenta aprisionar sua liberdade de circular na cidade da forma que quiser. Da mesma forma que ela trata a questão da assédio ela vai lutar contra a ameaça contante de remoção forçada causada pela gentrificação.

Apesar do capitalismo estar cada vez mais se utilizando de apropriações de plataformas de movimentos sociais para fazer mercadorias, sobretudo do feminismo, o seriado não deixa de ser uma obra de arte perfeita para debater as relações entre as questões de gênero, raça e cidade.

 

 

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