A Mordaça “Anti-Bruxa”: design para exclusão de mulheres do espaço público

mascara

Roland Caillaux, 1945

No ensaio “Can the Subaltern Speak?” (“Pode o subalterno falar?”), de 1985, a teórica feminista indiana Gayatri Chakravorty Spivak argumenta que o subalterno, no caso a mulher não-européia, não pode falar e quando toma coragem de fazê-lo, não é escutado. Isto é, além de enfrentar diversas dificuldades para conseguir se expressar, quando consegue, sua voz não tem valor. Isso devido a constituição cultural do que se constituiria um saber válido, no qual sua valorização depende ainda do sujeito que o elabora, sujeito este construído a partir do mito da universalidade. O ensaio é uma crítica a ciência a partir da ótica do feminismo pós-colonial, mas serve também para pensar a relação entre a fala e a separação construída pela divisão sexual do trabalho a partir do binarismo espaço público/privado. Falar e ser escutada é fazer parte do todo, das decisões coletivas, da política e do espaço comum. É fazer parte da cidade. 

Durante a caça às bruxas e a formação do capitalismo, Silvia Federici nos relata como essa guerra contra as mulheres se constituiu em uma tentativa coordenada de degradá-las, de demonizá-las, de destruir seu poder social e de encarcerá-las ao ambiente doméstico, ao mesmo tempo que este se tornou, a partir de então, um espaço sem valor social nem político. A perseguição da solidariedade e das relações comunais femininas foi também uma maneira de isolar as mulheres na esfera do lar. As amizades entre mulheres tornaram-se objeto de suspeita – “uma subversão da aliança entre marido e mulher” – e as suas relações foram demonizadas. É, inclusive, nesse período, que a palavra “gossip” (fofoca), que antes significava “amiga”, se transforma em um termo pejorativo (Federici, 2017, p. 334 – 335).

Jean Bodin, famoso jurista francês do século XVI, afirmava: “devemos disseminar o terror entre algumas, castigando muitas” (Jean Bodin apud Ibidem, p. 333). Nesse sentido, a punição pública era mais uma das formas de estabelecer o controle a partir do horror e do medo. A forma mais conhecida era a queima de mulheres vivas até sua morte no espaço público. Mas haviam outras formas de punição, dirigidas especificamente às mulheres.

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Mulher usando uma “rédea de bruxa” e uma placa no pescoço com os dizeres “Scold” (reclamona). Ela está usando o aparato exposta a humilhação no espaço público, aparentemente em frente a sua residência, enquanto uma criança, provavelmente sua filha, chora de vergonha aos seus pés. Uma outra criança passa pela rua e parece a olhar estupefata a cena de punição.  Nova Inglaterra, litografia de 1885.

Uma das formas mais perturbadoras e, no entanto, pouco conhecida, era o uso de uma máscara, conhecida como “rédea de bruxa”, ou “mordaça de branks”: um instrumento de punição, tortura e humilhação pública. O dispositivo era um focinho em uma estrutura de ferro que encerrava a cabeça. Um freio de repreensão, com uma estrutura de ferro articulada para encerrar a cabeça e uma mordaça para caber na boca e comprimir a língua. Uma ponta afiada dentro da mordaça impedia a fala, pois qualquer movimento da boca poderia causar uma laceração. Ao usar o dispositivo, era impossível comer ou falar. Esta “engenhoca de ferro empregada para punir mulheres de língua afiada” foi projetada e concebida exatamente no século XVI, durante o período da caça as bruxas e degradação do poder feminino durante a acumulação primitiva, como uma punição para “megeras” ou “reclamonas”; mulheres das classes mais baixas cujo discurso foi considerado “desenfreado” ou “problemático” – muitas vezes mulheres suspeitas de feitiçaria – evitando que tais “fofoqueiras” falassem. Por isso também é conhecido como “freio da fofoca”. Além da máscara a pessoa punida deveria levar em seu pescoço uma placa que informava o crime que havia cometido. A criminosa era colocada em um lugar público e muitas vezes espancada. Era usado sobretudo em mulheres.

O mesmo método de tortura e punição foi adaptado, na mesma época, para uso nas colônias europeias. Se chamava “máscara de flandres” – pois era feita de folhas de flanders – e neste caso era usada como artefato de punição e controle da escravidão. A famosa imagem abaixo é de uma mulher escravizada rebelde, Anastácia. Sem história oficial, seu nome africano é desconhecido. Alguns dizem que ela teria sido uma princesa Nagô/Yorubá antes de ter sido capturada por traficantes de escravos europeus e trazida para o Brasil. Segundo relatos, ela foi forçada a usar um colar de ferro muito pesado, além da máscara. As razões dadas para o castigo variam: alguns relatam seu ativismo político no auxílio em fugas; outros dizem que ela havia resistido às investidas sexuais do mestre branco; outra versão transfere a culpa para o ciúme de uma sinhá que temia sua beleza. Após um longo período de sofrimento, ela morreu de tétano em função do colar de ferro ao redor de seu pescoço. Existiam ainda outros tipos de máscaras usadas na escravidão brasileira que cobriam o rosto inteiro tendo apenas alguns furos para respirar e enxergar, como se pode ver na imagem ao lado de Anastácia (KILOMBA, 2010).

“Oficialmente, a máscara era usada pelos senhores brancos para evitar que africanos/as escravizados/as comessem cana-de-açúcar ou cacau enquanto trabalhavam nas plantações, mas sua principal função era implementar um senso de mudez e de medo, visto que a boca era um lugar tanto de mudez quanto de tortura. Neste sentido, a máscara representa o colonialismo como um todo. Ela simboliza políticas sádicas de conquista e dominação e seus regimes brutais de silenciamento dos(as) chamados(as) ‘Outros(as)’.” (KILOMBA, 2010, p. 172 e 173, grifos meus).

Quando tais artefatos se tornaram retratos grotescos da guerra contra mulheres da caça às bruxas, da colonização e da escravidão as máscaras se tornaram outras. Mais sutis e invisíveis. Foram patologizadas pela ciência e pela psicologia. A “Histeria” e outras doenças direcionadas exclusivamente ao sexo feminino. Pela ridicularização de todo assunto que fosse feminino e/ou relacionado ao espaço doméstico. A “louca”, a fofoqueira” e a “histérica” e outras diminuições valorativas às tentativas de expressão, solidariedade e troca de informações femininas. Discursos que eram vistos como genialidade em homens brancos eram considerados loucura em mulheres, pessoas negras e “outros (as)”.

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Na “Escola Sorrisos”, em Budapeste, uma mulher, com um desenho de sorriso amarrado sobre sua boca, se olha em um espelho de mão. Na década de 1930 a terapia do sorriso era usada para condicionar a pessoa deprimida a sorrir por meio da visualização de seu próprio rosto com a máscara de um sorriso. A terapia foi criada de modo a combater o suicídio que crescia no pais. (Fotógrafo desconhecido; Hungria em 1937″. Do catálogo da coleção da revista ilustrada holandesa Het Leven (“Da Vida”) (1906-1941) da Image library the Memory of the Netherlands.)

Não é a toa que grande parte das manifestações feministas – e também de outros movimentos sociais, como o movimento negro por exemplo – utilizam a simbologia da mordaça para demonstrar que as mulheres estão cansadas de serem silenciadas.

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Manifestação em 2014 contra a criminalização do aborto no México, onde a lei que permite a interrupção de gravidez não desejada existe desde 2007. Na máscara em forma de uma grande boca que elas levam no rosto está escrito: “sua boca é fundamental contra os fundamentalismos” (“Protestan contra leyes antiaborto en Nuevo León. Foto: Miguel Dimayuga”)

Estas máscaras refletem de forma escancaradamente literal a forma violenta de silenciamento  ao qual foram submetidos diversos grupos aos quais se queriam obedientes, servis e distantes dos espaços decisão, dos espaços públicos e políticos. Resgatar e difundir a história de tais artefatos é importante para auxiliar na criação de mecanismos para que este silêncio forçado se acabe.

Vozes-mulheres

A voz de minha bisavó ecoou
criança
nos porões do navio.
Ecoou lamentos
De uma infância perdida.

A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.

A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
No fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela.

A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue
e
fome.

A voz de minha filha
recorre todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.

A voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato.
O ontem – o hoje – o agora.
Na voz de minha filha
se fará ouvir a ressonância
o eco da vida-liberdade.

Conceição Evaristo (Cadernos Negros, vol. 13, São Paulo, 1990)

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Imagem de montagem realizada para debate no nosso curso “Nem nossos corpos nem nossos territórios”: gênero, território e movimentos sociais, de Fabrina Furtado e Diana Helene, lecionado no GPDES da UFRJ, neste segundo semestre de 2017. O post como um todo é fruto dos debates feitos em sala de aula durante esse curso e na disciplina da Pós-Graduação do IPPUR Gênero, colonialidade, corpo e território: da caça às bruxas à modernidade neoliberal, de Soraya Silveira Simões e Diana Helene, neste quarto bimestre de 2017.

Referências:

FEDERICI, Silvia. Calibã e a Bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. Editora Elefante, 2017 Introdução e parte do Capítulo 2 (pp. 167 a 234).

KILOMBA, Grada. “A Máscara”, Tradução por Jessica Oliveira de Jesus, 2014 (original: “The Mask” In: Plantation Memories: Episodes of Everyday Racism.Münster: Unrast Verlag, 2. Edição, 2010).

SPIVAK, Gayatri Chakravorty. (2010). Pode o Subalterno Falar? Belo Horizonte: Editora UFMG

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