O Coletivo “Charlotte Perriand”

Guestpost (autoras convidadas): texto do Coletivo Charlotte Perriand (coletivo de estudantes do curso de Arquitetura e Urbanismo da UNICAMP)
Charlotte Perriand em seu apartamento

Charlotte Perriand em seu apartamento

O Coletivo Charlotte Perriand surgiu no ano de 2016 em meio aos três meses de greve geral da universidade. Ficamos bastante inspiradas por duas professoras nossas, a Silvana Rubino e a Sabrina Fontenele, que trouxeram a discussão de gênero e domesticidade para o curso de arquitetura e urbanismo. Depois de alguns encontros entre as mulheres do curso começamos a nos questionar quantas vezes usamos referências de arquitetas mulheres nos nossos projetos, quantas vezes referências femininas foram utilizadas como bibliografia no programa das disciplinas, onde estão as mulheres no mercado de trabalho, já que a maioria no curso é de mulheres, ou quantas figuras femininas foram contempladas pelos prêmios que tanto reconhecemos.

Durante esse período também fomos surpreendidas – ou nem tanto – com o quanto vivemos essa luta no dia a dia em nosso espaço universitário. No ano passado, relatos das nossas companheiras da Escola da Cidade, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília e da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo do Mackenzie, expuseram assédios verbais e físicos feitos por professores dentro do ambiente acadêmico. Não é normal o professor assumir uma posição dominante e vociferar argumentos machistas dentro da faculdade. Não é normal isso acontecer em nenhum lugar.

Ainda que a discussão de gênero tenha avançado muito dentro do curso nesse período e cada vez mais na profissão, ainda ouvimos os mesmos comentários machistas de professores e colegas de trabalho. Assim, nós, um grupo de alunas do curso de arquitetura e urbanismo da Unicamp, criamos este coletivo. Um coletivo, que em solidariedade aos acontecimentos citados, também traga em pauta as questões relacionadas às mulheres – dentro e fora do nosso curso na Unicamp – que discuta nossa profissão, nos ajude a encarar nossa área de atuação com igualdade e nos permita ser críticas em relação ao nosso futuro. Um coletivo que também seja um espaço aberto para discussões a respeito de como e quanto sofremos diariamente com o machismo no espaço público, na profissão e na faculdade.

 

Coletânea de fotos reunidas pelo coletivo: “Mulheres em suas Residências”

 

Afinal, quem foi Charlotte Perriand?

Nascida no ano de 1903, na França, Charlotte Perriand atuou como arquiteta e designer. Sua formação começa em 1920, com dezessete anos, quando ingressa como bolsista na École de l’Union Centrale des Arts Décoratifs, uma escola feminina e de orientação feminista, que promovia uma visão das arts menagèrs e participava de campanhas que visavam à liderança das mulheres na produção e consumo. Em 1927, já formada, Charlotte procura trabalho no escritório de Le Corbusier, onde foi recusada a princípio, sob o argumento de que, em seu escritório, não se bordava almofadas. Foi contratada após alguns dias, com um pedido de desculpas, após Le Corbusier ver sua exposição, em 1927, no Salon d’Automne. Durante seu período no escritório, Charlotte foi, principalmente, autora de todos os equipamentos interiores das construções realizadas.

Ela tinha seu apartamento como um grande laboratório. Em 1928, concluiu uma sala de jantar que foi recriada e exibida no Salon des Artistes Décorateurs do mesmo ano. A sala afirmava sua posição ideológica, não era uma sala para a femme au foyer. Em seus projetos, Charlotte apresentava uma linguagem própria e tinha preferência por usar materiais industriais, o que a fazia ser bastante revolucionária para o contexto. Em 1929, Charlotte participou da criação da Union des Artistes Modernes (UAM), juntamente com René Herbst, Robert Mallet-Stevens e mulheres, como Eileen Gray e Sonia Delaunay. A partir dos anos 30 e até o final de sua vida, em 1999 em Paris, Perriand passou a focar seu trabalho em interesses sociais, em busca de projetos igualitários e populares.

Charlotte Perriand, apesar da extensa carreira, e de ter uma produção significante para a área, foi mais uma no conjunto de arquitetas que tiveram seus trabalhos desvalorizados e atribuídos à arquitetos homens. Seu reconhecimento foi tardio, e ainda há quem conteste seu mérito.

***

Algumas intervenções realizadas pelo coletivo nestes dois anos:

‘eles e elas’

13903200_279719179057627_4300466410529533317_nA primeira intervenção feita pelo coletivo buscou revelar as mulheres que estão por trás dos grandes gênios da arquitetura. Assim, levantamos nomes de parcerias na arquitetura, seja ela profissional ou amorosa, como por exemplo, Denise Scott Brown e Robert Venturi, Le Corbusier e Charlotte Perriand ou Mies Van der Rohe e Lilly Reich. Gostaríamos de trazer a luz os nomes dessas mulheres a fim de que elas recebam o reconhecimento que por tanto tempo lhes foi extraído.

‘sorria’

Na segunda intervenção queríamos provocar um sentimento confortável, de segurança e empoderamento em todas as mulheres que vissem os cartazes.  Para alegrar o dia de cada uma pelos corredores da FEC(AU), espalhamos frases como ‘confie no seu trabalho’, ‘você é uma arquiteta da porra’ ou ‘você é linda’ com fotos da Charlotte Perriand.

‘mulheres em suas residências’

WhatsApp Image 2017-10-11 at 23.25.00 - CopiaA última intervenção foi relacionada com o tema da Semana de Arquitetura e Urbanismo 2017, Modos de Morar, sobretudo à temática do segundo dia, Domesticidade. Coletamos foto de mulheres, em sua maioria arquitetas, e em suas residências para aumentar nossos repertório de referências femininas e perceber quem foram essas mulheres fora das representações midiáticas. O espaço doméstico permite muitas discussões de gênero, especialmente estando tão frequentemente atrelado à figura feminina, ao mesmo tempo ambiente que sempre excluiu as mulheres do espaço público mas que hoje também é ambiente de proteção. Foi uma exposição sensível de mulheres em suas casas e muitas vezes ao lado de projetos, pinturas e mobiliários feitos também por elas.  A história por trás dessas mulheres é longa. Qual a relação do corpo feminino com a casa que ele habita?

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