O corpo que amamenta no espaço público

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foto de Michelle Gouveia – Projeto #AmamenteNaCidade

De 1 a 8 de agosto de 2017 aconteceu a Semana Mundial do Aleitamento Materno. Entre as diversas ações relativas a esse evento, muitas cidades no Brasil organizaram “Mamaços*” para levantar a importância do leite materno e reivindicar o direito à amamentar sem constrangimento. Isso porque o corpo que amamenta ainda é um elemento “fora de lugar” quando se encontra em espaços públicos. Mesmo que ninguém peça oficialmente para a mãe que se retire ou  que se cubra enquanto amamenta, muitas vezes ela se sente desconfortável com o olhar de repreensão das pessoas. Sob o pretexto de “ir para um lugar mais tranquilo”, as mulheres são, mais uma vez, levadas a se confinar na esfera privada e no espaço doméstico.

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foto de Michelle Gouveia – Projeto #AmamenteNaCidade

Em comemoração a semana, aconteceu em São Paulo, no dia 5 de agosto, a exposição de fotografias #AmamenteNaCidade, de Michelle Gouveia, composta de fotos de mães amamentando no espaço urbano. Segundo o site da exposição o objetivo era realizar um “manifesto fotográfico que paralisa os tempos de uma sociedade extenuada para dilatar os tempos poéticos e políticos do gesto de amamentar: sete mulheres ocupam espaços públicos da cidade de São Paulo com seus corpos, seus gestos e suas crias ao peito, sem licenças, desculpas ou “paninhos””. Existem ainda outros projetos fotográficos com o mesmo objetivo no Brasil como o “Loove” de Catarina Beato e Tiago Figueiredo; o “Mama” de Anne Muriel Xavier; e o “Mamaço no Espaço” de Irmina Walczak e Sávio Freire; o que demonstra a importância de dar visibilidade ao ato de amamentar em espaços fora da esfera privada.

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foto de Muriel Xavier – Projeto Mama

Para além da ideia sexualizada recorrente associada ao seio feminino, esse corpo que amamenta e cheira leite não encontra lugar na cidade. As simbologias referentes às clivagens entre razão e natureza tornam esse corpo inadequado ao espaço urbano, aos espaços de poder e aos espaços produtivos.

Foto de Tiago Figueiredo – Projeto “Loove”

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A deputada Manuela DÁvila amamenta na Assembleia estadual, 2015

Por essa razão o ato de amamentar no espaço público ainda é um gesto político. Em Porto Alegre, em 2015, a deputada estadual Manuela D’Ávila (PCdoB) amamentou sua filha, Laura, durante uma intervenção na Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Estadual e a foto se espalhou pelo mundo. Em seu Facebook ela declarou:

“O que chama atenção na foto em minha opinião? Mulheres em espaço de poder, crianças em espaços de poder, vida em espaços de poder. A política é masculina e machista, a política não tem espaço para as mulheres, a política não tem espaço para o que nos diferencia dos homens, a política não tem espaço para a ingenuidade e para a alegria das crianças, não tem espaço para a naturalidade com que conciliamos nosso trabalho e nossas lutas com nossos bebês. Levar Laura comigo tornou-se, sem que eu percebesse, uma forma de resistir a política que desumaniza.”

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Mamaço no Largo São Sebastião, no Centro de Manaus, em 2016

No Brasil, o direito de amamentar no espaço público é garantido por lei em apenas cinco Estados: Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Mato Grosso. Para mães e ativistas do aleitamento materno, essas leis são necessárias porque inibem a repressão vivenciada por muitas mães na cidade. Lutar pelo direito da mãe que amamenta poder usufruir da cidade da mesma forma que os outros cidadãos é uma das formas de garantir a equidade de gênero no espaço urbano. Lugar de amamentar uma criança ou um bebê é onde ele sentir fome.

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foto de Irmina Walczak e Sávio Freire – Projeto Mamaço no espaço

* O “Mamaço” é uma referencia a uma manifestação performática muito comum no movimento gay, o “Beijaço”. Nesta performance, um grupo de pessoas invade um local acusado de discriminação de afeto homossexual e realiza um grande beijo coletivo. Da mesma forma, diversas mães protestam amamentando em público em um espaço no qual uma mulher tenha sido impedida ou constrangida de amamentar. Os eventos começaram em 2011, quando uma mulher foi proibida de amamentar seu filho no espaço Itaú Cultural, em São Paulo. A partir de então, aconteceram mamaços por todo país.
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