“Sobre as mulheres negras faveladas e a mobilidade urbana” – por Marielle Franco

Capa da Revista Blooks número 4 - Março/Abril/Maio 2017

O texto da vereadora carioca Marielle Franco, intitulado “Sobre as mulheres negras faveladas e a mobilidade urbana” na revista Blooks é uma provocação interessante para o campo da mobilidade urbana, muito habituado ao debate tecnocrático sobre “eficiência ” realizado por figuras brancas e masculinas . A partir de sua experiência pessoal como moradora da favela Complexo da Maré e de uma perspectiva intersecional entre gênero, raça e classe, o texto traz de forma direta dados e reflexões sobre os rumos que esse debate pode tomar levando em consideração os problemas sociais nas favelas do Rio de Janeiro.

Você pode ler diretamente na versão online da revista Blooks (ver página 21) ou na transcrição abaixo:


Sobre as mulheres negras faveladas e a mobilidade urbana
Marielle Franco
publicado originalmente em: Revista Blooks n°4, Março/Abril/Maio 2017

Fiz minha graduação na zona sul do Rio. Acostumada a circular pela zona norte, entender as linhas de ônibus da zona sul não era fácil. Muitas vezes fiz baldeações desnecessárias, ou gastei mais tempo e dinheiro de um destino ao outro, porque não havia informação de rotas e alternativas. Somado a isso, o alto custo, a má qualidade do transporte (que já me obrigou numa ocasião a empurrar um ônibus), o medo do assédio e da violência impuseram muitos desafios.
É muito comum assistir um especialista em transporte e mobilidade que fale sobre capacidade, velocidade e tecnologia. A maioria deles são homens brancos, bem formados, acostumados a uma abordagem associada à eficiência. Mas e a perspectiva democrática? Fica muito difícil tratar o problema se não priorizamos a mobilidade como possibilidade de promover o acesso à cidade, sobre tudo, quando o foco são as mulheres negras faveladas.
As nossas metrópoles são gigantescas e diversas. As oportunidades de locomoção e acesso ao trabalho, à cultura e à arte, ao lazer, aos serviços deveriam ser inúmeras, mas não é bem assim. As cidades têm sido mais hostis conosco, limitando cotidianamente o direito a circular por ela. Isso dificulta nossa mobilidade objetivamente e simbolicamente.
Para ilustrar, em pesquisa realizada em diversas capitais pela ActionAid em 2013, o ponto de ônibus foi considerado o lugar mais inseguro para 91,1% das mulheres entrevistadas na favela, onde sou cria, o Complexo da Maré, no Rio de Janeiro. Mas isso não é apenas uma realidade carioca. Em seis cidades pesquisadas, 77% das mulheres têm medo de esperar o ônibus. A má qualidade da iluminação pública e dos espaços de circulação e convivência torna o simples ato de ir e vir um ato de resistência.
Ao mesmo tempo, quando olhamos a localização de equipamentos culturais, estes estão distantes das favelas ou são de difícil acesso – seja pelo alto custo e pouca oferta de transporte, seja pelos grandes intervalos e limitação de horários aos fins de semana. É como se nos dissessem que não temos direito à cultura e ao lazer e de usufruir das possibilidades de existir para além da moradia e do trabalho.
A política de transporte para as favelas tem servido mais a uma pirotecnia politiqueira, como é o caso dos teleféricos no Complexo do Alemão e na Providência, do que contribuir de fato para a qualidade de vida nestas favelas. Não é por acaso que os mototáxis são uma alternativa importante de mobilidade nas favelas cariocas. O prejuízo ainda é maior para mulheres faveladas chefes de família. De acordo com o IBGE, grande parte delas reside em áreas mais precárias e assim mais sujeitas às dificuldades de acesso e mobilidade, notadamente em favelas fincadas nos morros da cidade.

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