por uma cidade para mães e crianças

quadrinho da maravilhosa Thaiz Leão autora do “Mãe Solo”

Era carnaval e resolvemos sair com nosso bebê de quatro meses. No primeiro dia quem levou a bebéia amarrada no sling foi o pai dela. Foi muito divertido. Um sucesso! As pessoas não paravam de tirar foto da nossa joaninha. E elogiavam: “que legal trazer o bebê no carnaval!”, “assim já acostuma desde cedo”. Teve gente que até aproveitou pra paquerar o pai descolado “hum… a mãe também veio ou você está sozinho?”.

No outro dia eu coloquei nossa filha no carregador e fomos todos contentes pra rua. Mas a recepção foi COMPLETAMENTE – para não dizer violentamente – diferente. Nenhuma foto e nenhum elogio. Apenas olhares tortos que pareciam dizer “o que você esta fazendo com um bebê aqui?”. Algumas pessoas falaram “NOSSA!! é um bebê de verdade!?!?!” com cara de horrorizadas. Encontrei uma amiga que teve a coragem de dizer na minha cara o que os outros não disseram “você é louca de vir com ela aqui”. Foi horrível, fomos embora se sentindo os piores pais do mundo.

Depois, em casa, sentamos e pensamos. Os blocos eram praticamente iguais, no mesmo horário (de manhã cedinho) e na verdade o primeiro era bem maior que o segundo, o que, nesse caso, traria até mais riscos para o bebê. O que tinha mudado? QUEM carregava a criança. O pai era um cara divertido de sair com a filhinha pequena no carnaval, eu era uma mãe negligente. EU DEVERIA TER FICADO EM CASA.

Falta refletir mais sobre isso, mas essas experiências me fizeram pensar muito sobre o que é ser mãe e o sobre o que é ser pai em sua circulação no espaço urbano. Será que essa história também reflete como acontece a relação entre o espaço privado/espaço público e o lugar das mulheres/homens na cidade?

Recentemente um vídeo viralizou nas redes sociais: um homem estava dando uma entrevista ao vivo quando, subitamente, seus filhos invadiram o escritório do pai e atrás deles veio uma mulher desesperada para esconde-los novamente. Para além das piadas racistas/classistas se ela era a mãe das crianças ou uma babá (isso porque o homem era branco e ela asiática) uma coisa inquietante que me tocou era se constituir um PROBLEMA essas crianças aparecerem no espaço público de uma entrevista. Uma amiga minha fez um comentário genial:

Denise d’Omolu
12 de março às 11:21 ·
Sobre o vídeo que tem circulado do professor britânico na BBC, sobre um homem e seus filhos, sobre ambientes de trabalho e crianças… Demorou muito pra cair uma certa ficha na minha cabeça – tempo suficiente pra eu achar que vale a pena expor e compartilhar: A gente só pode viver num mundo sem crianças, ter restaurantes sem crianças, por ex, ambientes de trabalho, ambientes públicos de modo geral, só podem estar limpos e protegidos das crianças e seus ruídos, porque tem uma mulher encarcerada com elas no ambiente privado. Mãe ou babá ou tia ou vizinha… Antes e depois da creche – isso claro, se creche houver – a gente encarcera uma mulher com as crianças pra poder exercer nossa vida adulta protegida delas.

A reflexão, além de maravilhosa, tem uma profundidade que eu só entendi, na carne, agora que sou mãe: como o sistema hétero-patriarcal é onipotente, onipresente, segregacionista e violento para a vida de crianças e mulheres, sobretudo na conformação do espaço urbano. O lugar de ambas nas cidades é enclausurado ao espaço privado das residências, creches ou no máximo ao espaço circunscrito dos parquinhos infantis (quando estes existem). Fora desses espaços esses corpos são mal vistos, ou precisam ser extremamente controlados – isto é, “civilizados”: silenciosos, limpos e corretos – para poderem permanecer.

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Um pensamento sobre “por uma cidade para mães e crianças

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