Campanha “Chega de Fiu-Fiu” escancara os problemas do direito da mulher à cidade

A campanha contra o assédio sexual em espaços públicos “Chega de Fiu-Fiu” foi uma idéia de Juliana de Faria e Karin Hueck para mostrar que as mulheres estão fartas do assédio sexual nas ruas. Assim elas criaram uma pesquisa online em agosto de 2013, da qual participaram 7.762 mulheres. Para divulgar a pesquisa nas redes digitais, elas contaram com quadrinhos feitos pela artista Gabriela Shigihara:

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Os resultados da pesquisa mostram claramente como o assédio constante limita o uso das mulheres do espaço das cidades de maneira igualitária e segura: 81% das mulheres entrevistadas responderam sim para pergunta “Você já deixou de fazer alguma coisa (ir a algum lugar, passar na frente de uma obra, sair a pé) com medo do assédio?“. Além disso, 90% afirmam terem trocado de roupa pensando no lugar que iam por medo de ser assediada.

Outro dado relevante é que a pesquisa mostra como a quase totalidade dos momentos de assédio aconteceram na rua (98%), e mais ainda, nos espaços de transporte (64%), o que indica como a questão influencia diretamente nos deslocamentos urbanos das mulheres. 85% das pesquisadas também responderem já terem sido tocadas no seu corpo contra sua vontade no espaço público.

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Infográfico sobre os resultados da campanha criado pelo site de notícias “MdeMulher” (http://mdemulher.com.br/)

Além disso a pesquisa mostra que a maioria não gosta de ser assediada (83%), ao contrário do que se diz normalmente, um argumento que tende a naturalizar o assédio sexual em vez de demonstrar os problemas que ele causa na vivência urbana feminina.

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Desenhos para divulgar a Campanha “Chega de Fiu-Fiu”

O texto “Catcalls and the right to the city“, do site “Future Challenges – Thinking global, living local: Voices in a globalized world”, faz uma interessante discussão relacionando a pesquisa “Chega de Fiu-Fiu” com o direito à cidade:

“A questão é dar a homens e mulheres, tanto heterossexuais como homossexuais, os mesmos direitos à cidade, o mesmo direito à demonstrar sua libido em público de uma forma respeitosa. Hoje, cantadas são muito mais uma demonstração de poder vinda de um homem heterossexual contra toda mulher que ele considera desejável, que um jogo de sedução ou uma paquera . (The point is to give both men and women, both heterosexual and homosexual, the same rights to the city, the same right to demonstrate their libido in public in a respectful way. Today, catcallers are much more of a demonstration of power from an heterosexual man against any woman he considers desirable than a seduction game or a relationship starter.)”

 

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Infográficos de Flávio Bezerra e Ilustração da campanha de Gabriela Shigihara Para ver essa imagem grande acesse: http://thinkolga.files.wordpress.com/2013/07/infografico-chega-de-fiu-fiu.jpg

Por fim, um dos frutos mais interessantes da pesquisa são os depoimentos de assédio no espaço público, publicados no site “Chega de Fiu-Fiu”. Em muitos deles podemos sentir a insegurança e o medo que as mulheres enfrentam no seu dia a dia nas cidades, e que marcam seu modo de se deslocar e usufruir a vivência urbana.

“Eu acelerei meu passo mais ainda. Parou, chamou, passou, chamou novamente… e voltou! Aí parou na minha frente e disse “Linda, tá com medo, hein, Princesa? Tá com medo?”. Não bastou assediar, ele jogou na minha cara a insegurança que eu estava sentindo. E eu precisei demonstrar que estava com medo, saltei para o lado e nem conseguia olhar para a direção dele. Medo, medo mesmo. Parecia que a rua não tinha mais fim e que todas as pessoas haviam sumido. Minha vontade mais profunda era de soltar uma resposta à altura, mas e aí?! É claro que eu não deveria, não naquela hora, não naquele momento, não sozinha. Finalmente o final da rua chegou, corri até minha casa, tenho certeza que ele não viu onde entrei. Mas senti uma fragilidade imensa, nossa palavra feminina e cansada desse tipo de comportamento já deveria bastar, mas infelizmente é pouco. Me senti diminuída e com medo de ser estuprada, machucada. Por mais que isso tudo tenha acontecido em minutos e que ele não tenha encostado um dedo em mim, esse episódio ficou gravado na minha memória, junto com a revolta de eu não poder me defender e de ele ter demonstrado o quanto se divertiu assistindo ao meu medo. Não deveria ser assim.”  Anna C. B.

“Eu tinha 20 anos e tinha que sair de casa muito cedo pra pegar o ônibus que me levava à faculdade. Por volta das 5h30 da manhã, as ruas estavam desertas e ainda estava escuro. Eu estava andando por uma rua relativamente iluminada, mas deserta, e um homem estava andando na calçada na minha frente. Como eu estivesse com pressa e com medo, tentei ultrapassa-lo. Ele se voltou subitamente contra mim e enfiou a mão entre minhas pernas – eu estava com uma saia até o joelho. Eu gritei desesperadamente e comecei a bater nele sem nenhum critério. Ele saiu correndo. Eu continuei chorando e gritando, desesperada, acordando a vizinhança; e continuei o caminho até o ponto de ônibus. Agradeci mil vezes por estar usando um absorvente externo na hora, mas mesmo assim, até hoje eu me lembro daquela sensação nojenta da mão dele em mim. Carina M.

“O pior assédio que já sofri foi quando estava dentro do ônibus e vários torcedores entraram no veículo, gritando, batendo no teto, fazendo terrorismo. Eu estava com medo, mas sob controle, até que eles começaram a gritar: ” Ô branquinha, vou comer seu cu.” Eu fiquei apavorada, e um senhor que estava sentado ao meu lado, que não era desse grupo de torcedores, falou que ia descer no próximo ponto e que poderia “me escoltar”. Eu desci em um ponto que não era o meu, aos prantos e nunca mais peguei ônibus em dia de jogo.” Ursulla M.

Links:

Site da Campanha: http://thinkolga.com/chega-de-fiu-fiu/

Resultados da pesquisa: http://thinkolga.com/2013/09/09/chega-de-fiu-fiu-resultado-da-pesquisa/

Depoimentos: http://thinkolga.com/chega-de-fiu-fiu/depoimentos/

Reportagem sobre a pesquisa em inglês “Catcalls and the right to the city”: http://futurechallenges.org/local/catcalls-and-the-right-to-the-city/

Reportagem sobre a pesquisa em francês “Les Brésiliennes en ont marre de se faire siffler”: http://quebec.huffingtonpost.ca/sarah-sanchez/bresiliennes-marre-de-se-faire-siffler_b_4122011.html

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