indicação de leitura: “Feminist theory and planning theory: the epistemological linkages”

SANDERCOCK, Leonie; FORSYTH, Ann. “Feminist theory and planning theory:  the epistemological linkages”. In: CAMPBELL, Scott; FAINSTEIN, Susan. Readings in planning theory. Malden/Mass, Blackwell Publishers, 1996, p. 471-478.

A crítica feminista à epistemologia patriarcal e racionalista do Planejamento Urbano e Regional

Leonie SANDERCOCK vem produzindo e organizando uma excelente bibliografia acerca de estudos urbanos não-hegemônicos. Neste texto, em conjunto com Ann FORSYTH, as autoras fazem uma reflexão acerca da união epistemológica entre gênero e planejamento. O trabalho é uma ótima introdução para se pensar no tema, tão escasso nas leituras brasileiras. Infelizmente, o texto original é em inglês e ainda não está traduzido. Por isso, pontuamos aqui algumas colocações importantes que elas apontam.

A crítica feminista ao planejamento tecnocrático tem como centro a reflexão acerca da produção de conhecimento, e fundamentalmente, sobre quem o produz. A trajetória dessa crítica começa com a ideia de formular uma Epistemologia Feminista (começo dos anos 70), buscando legitimar as Mulheres como sujeito do conhecimento. Nesse sentido, as feministas argumentavam que era necessário um esforço em transcender a epistemologia positivista e a alienação causada por métodos de pesquisa e definições que desvalorizaram e/ou ignoraram as experiências vividas, e se recusam a considerar o conteúdo político da criação de saber (SANDERCOCK; FORSYTH,1996: p. 472, grifo nosso). As teorias feministas rejeitam a pretensa pesquisa neutra e “value-free” da ciência hegemônica. A partir da premissa de que o conhecimento é uma construção social, elas defendem um pensamento conscientemente embutido de valores e propósitos, que defendam os oprimidos e apontem seus opressores.

Outra característica é ter como objetivo primordial vencer o abismo entre a teoria e a prática. São teorias interessadas nas abordagens e maneiras cooperativas de resolver problemas, e ver como essas questões impactam seus corpos, suas famílias e suas vizinhanças tanto politicamente como pessoalmente. Nesse sentido, o “processo” de se fazer planejamento torna-se extremamente importante, o que significa trazer para o trabalho dos teóricos e planejadores a totalidade das experiências da vida (Idem, p. 448-449). Mais tarde, a partir dos anos 80, essas críticas feministas ao planejamento tecnocrático evoluem, quando passam a reconhecer e tentar se unir à outras formas contra-hegemônicas de produção de saber, buscando dar legitimidade ao conhecimento não científico.

“Embora nós não argumentamos a favor de uma distinta epistemologia feminista, queremos insistir que o conhecimento é inerentemente dialético e que a pesquisa feminista teve, e deve continuar a ter, um poder emancipatório e crítico” (“While we do not want to argue for a distinctive feminist epistemology, we do want to insist that knowledge is inherently dialecticaland that feminist inquiry has had, and should continue to have, emancipatory as well as critical power.” In: Idem, p. 473, tradução livre)

Assim, passam a criticar a centralidade da ciência hegemônica sobre outros saberes e outras formas de conhecimento, principalmente os saberes baseados na experiência. O significado desta crítica vai indicar a necessidade do desenvolvimento de uma teoria e de uma pratica do planejamento para “múltiplos públicos”, que se traduz na valorização de certos procedimentos práticos e epistemológicos, todos estes relacionados entre si:

  1. Falar – a importância da tradição oral, dos “causos”, da contação de estórias e das fofocas;
  2. Ouvir – escutar o outro, a “política social da vida diária”;
  3. Valorização do conhecimento intuitivo e do saber tácito;
  4. Utilização e/ou criação de formas simbólicas para transmissão/expressão de conhecimento e comunicação: música, pintura, teatro , etc;
  5. Valorização da prática: aprendizado decorrente da experiência concreta, o “aprender fazendo” (Idem, p. 472-473).

O interessante é que este artigo propõe um desafio metodológico a fim de valorizar uma epistemologia emancipatória, objetivo de quem busca pautar o debate feminista. Infelizmente, as formas tecnocráticas de saber ainda são hegemônicas na produção conhecimento e no modo como as cidades são estudadas. Por isso, a busca por este desafio é uma forma também de auto-valorização, de engajamento pessoal e político, permitindo cada vez mais colocar em xeque a pseudo-neutralidade científica.

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